| O. A. D.
Na sétima série
eu tinha um professor de matemática que era uma figura. Uma figura
não, ele estava mais pra um Pinochet mesmo. Claro que na época
eu não achava ele um Pinochet porque eu nem sabia quem era o Pinochet.
Achava mesmo que ele era um típico professor de matemática,
ou seja, muito bravo e chato.
Todo dia ele começava
a aula fazendo a gente escrever um cabeçalho no caderno assim: São
Paulo, 6 de agosto de 1978 O.A.D.
Sabe o que era esse O.A.D.?
Ordem, asseio e disciplina (!). Eram as qualidades que, segundo ele, todo
bom aluno deveria ter. Foi um ano inteiro escrevendo esse O.A.D. no caderno.
Páginas e páginas. Mas de todas essas qualidades eu só
fiquei mesmo com o asseio. Até porque, nessa época eu já
não era mais uma boa aluna.
Ordem e disciplina são
coisas impossíveis para mim. Eu chego em casa, está tudo
arrumadinho e em menos de dez minutos eu armo uma maloca à minha
volta. Passei a adolescência inteira (tá bom, a juventude
também) brigando com a minha mãe por causa da bagunça
do meu quarto. Ou melhor, era ela que brigava comigo (tá bom, tá
bom, hoje eu dou razão a ela...). Eu arrumo minha escrivaninha e
meia hora depois ela já voltou ao caos que estava antes. Acho que
é patológico.
Disciplina, então,
nem pensar. Não tenho disciplina nem com minhas lentes de contato,
que sempre acabam durando mais do que deveriam. Já tentei, juro
que já tentei. Mas é difícil. Pior, é impossível.
Já tive aquela ilusão de acordar cedo todo dia pra fazer
exercício. Foi uma piada. Achei que o problema fosse o horário,
então mudei o exercício para o final da tarde e cheguei à
conclusão que o problema era o exercício mesmo. Ou a maldita
falta de disciplina.
(Eu não tenho disciplina
pessoal nenhuma, mas tenho disciplina profissional. Será que é
porque essa disciplina paga as minhas contas?).
O velho professor Wilson
(lembrei!) bem que tentou. Mas o máximo que ele conseguiu foi fazer
de mim uma mulher bem limpinha. Limpinha, bagunceira e indisciplinada.
E feliz.
.... |