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Mundo chato

O mundo está ficando muito chato. Três coisas estão tirando a graça que houve no século 20: a falta de utopias, a globalização e a digitalização da vida. Já sinto saudades do velho e bom século de Lenin e Lennon. Progredimos demais e, do jeito que as coisas vão, o século 21 vai ser bem enfadonho. 

Claro, teremos computadores mais potentes e portáteis, conexões mais rápidas com a internet, possivelmente até um hotel na lua e um monte de outras inovações que nem o Bill Gates imagina. Mas estamos deixando para trás um estilo de vida talvez ingênuo, mas delicioso. 

Saudosismo barato? Pode ser, mas existe algo melhor do que passar a juventude acreditando que atrás da cortina de ferro existe um sistema político mais justo e que é possível mudar o mundo? Que graça tem viver sem contestar o sistema, acreditando que o negócio é ganhar muito dinheiro e que a terceira via se chama Tony Blair? A gente não deveria mesmo ter confiado em ninguém com mais de 30 anos. 

A globalização, além de ser uma palavra muito feia, está acabando com as referências políticas e culturais. O mundo nos impele a consumir, mas não cria nenhuma identidade dos produtos com a realidade local. Todas as marcas passam a ser mundiais e os tailandeses acabam consumindo as mesmas grifes que os bolivianos. Sem conhecer sua história, sem estabelecer um vínculo afetivo com essa marca. 

As fusões empresariais proliferam extinguindo marcas, identidades visuais, rompendo tradições. É um sucesso econômico, as ações explodem nas bolsas de todo o planeta, o mercado - esse ser onipresente e onipotente - fervilha. Mas a longo prazo isso pode ser perigoso. O consumidor pode começar a se sentir traído e pensar que, se a marca não é fiel a ele, por que ele deve ser fiel a ela? 

Não bastasse isso, há também a digitalização de tudo. Por um lado, um processo inevitável que traz praticidade e velocidade à vida. Por outro, é demasiado imediatista e pode ser muito chato. 

Tornou-se uma solução acessar o banco e fazer compras de supermercado, por exemplo, pela internet. Mas não se deve perder de vista o fato de que nem sempre foi um tormento ir ao banco ou abastecer a casa. Houve uma época em que era até um prazer bater um papo com o gerente do banco, o caixa sabia de cór o número da sua conta e o quitandeiro conhecia como ninguém suas preferências, além de pendurar o pagamento anotando a dívida na caderneta. 

Hoje as empresas têm de desenvolver sofisticados bancos de dados para armazenar informações com os hábitos do consumidor e se comunicar com ele por ações de marketing direto. Coisa que o açougueiro da esquina - que teve que fechar o seu negócio porque não agüentou a concorrência com a grande rede multinacional de supermercados que se instalou no bairro - fazia com o pé nas costas. 

O homem cria necessidades e se escraviza a elas. Dá voltas enormes para fazer de maneira sofisticada o que vinha fazendo desde sempre com simplicidade. Assim, o acesso remoto por computador é uma solução sobre a qual não se deve emitir juízo de valor. Ela é a solução possível. A que se dá pela via tecnológica, a única possível nos anos 90. Desapareceram as soluções filosóficas, políticas ou religiosas. 

Como corre o risco de desaparecerem também importantes memórias deste tempo. Talvez não tenhamos a noção de que estamos agora construindo nosso passado. Ao ler os manuscritos de grandes poetas ou grandes cientistas entramos em contato com seus rabiscos, correções e anotações de canto de página e temos a oportunidade de entender um pouco seu processo criativo e produtivo. 

É claro que estou escrevendo este texto em um microcomputador. E nunca ninguém vai saber o que eu reescrevi, o que eu eliminei definitivamente. Só se vai ter conhecimento do produto acabado. 

Minha família guarda a correspondência trocada entre meu bisavô que imigrou da Itália e os parentes  que ficaram por lá. É uma parte importante da história familiar. Dificilmente meus netos lerão os e-mails que meus amigos mandaram da viagem à Europa. 

Essa é a realidade e a tendência é de uma predominância cada vez maior da globalização e da digitalização. Avançamos e tivemos ganhos, sim, é indiscutível. Mas a marca internacional e o acesso à internet continuam acessíveis apenas para alguns. E perdemos muito, mas muito charme.
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