...

 
Tic-tac

Em seu Caderno H, o brilhante Mário Quintana diz o seguinte sob o título Tic-tac: "Mera ilusão auditiva graças à qual a gente ouve sempre 'tic-tac' e nunca 'tac-tic'... Depois disso, como acreditar nos relógios? Ou na gente." É uma idéia que eu adoro, aliás, faça o teste, fale repetidamente "tac-tic", "tac-tic", quando você menos esperar estará falando "tic-tac". Mas você vai ter que fazer o teste falando mesmo, porque já faz algum tempo que os relógios não fazem mais tic-tac, são digitais ou movidos a quartzo. Eles sequer têm corda, agora são movidos a pilhas, baterias ou eletricidade. 

Pensando bem, as crianças quando nos ouvem falar sobre o tic-tac dos relógios devem nos achar loucos. Provavelmente quem tem menos de quinze anos hoje nem conhece relógio que não seja digital, a quartzo ou elétrico. Só se seus pais ou avós tiverem algum por motivo afetivo. 

E não é só essa expressão que deixou de ter sentido. Veja só, quando falamos em "pegar o bonde andando" ou "dar a mão à palmatória" as crianças podem até entender a idéia, mas vão ter de conhecer um pouquinho de história para saberem o que bonde era um meio de transporte coletivo e que palmatória era uma coisa horrível que se usava para bater em maus alunos nas escolas. Claro que aconteceu o mesmo comigo em relação à palmatória e ao bonde (dele mesmo eu não me lembro, só de seus trilhos, que ficaram pelas ruas ainda alguns anos depois de sua extinção) mas essas coisas vão ficando cada vez mais antigas, com menos sentido, viram meras peças de retórica como 
o tic-tac. 

Outro dia o filho de uma amiga queria saber onde mudava a fonte da velha máquina de escrever dela e a filha de outro não consegue entender como não existia computador quando ele era criança. A vida é assim mesmo, eu também vivi situações parecidas com meus pais e meus avós. 

Mas essas expressões que repetimos sem saber ao certo a que estamos nos referindo às vezes causam mal-entendidos que podem durar anos. Aconteceu comigo. Você deve conhecer aquela trovinha infantil que diz "hoje é domingo, pede cachimbo, cachimbo é de barro, bate no jarro" e por aí vai. Pois é, faz só alguns dias que eu descobri que ela é assim, com o segundo verso dizendo "pede cachimbo". Passei a infância inteira, a adolescência e esses anos todos de vida adulta achando que era "pé de cachimbo". E nunca me preocupei com o fato de cachimbos não terem pés e muito menos porque o domingo seria o pé de um cachimbo. O importante nunca foi o sentido, mas a brincadeira de decorar e repetir e, na hora de falar, "pé de cachimbo" ou "pede cachimbo" tem o mesmo som. 

Por isso acho que continua difícil acreditar em nossos ouvidos, que nunca ouvem tac-tic. E menos ainda nos relógios, que agora marcam as horas mudos.

....