| A Saída
Tenho alguns amigos, gente
entre os 20 e os 30 anos, que estão muito desiludidos com o Brasil.
Tão desiludidos, que resolveram se mudar definitivamente para outros
países. Realmente, tem horas que é desanimador viver neste
país. Ainda mais se você for paulistano. Mas eu começo
a pensar qual será o futuro deste país se isso que está
acontecendo com alguns amigos meus se transformar em uma tendência
real, o êxodo da classe média.
Essas pessoas que estão
deixando o Brasil são trabalhadoras, honestas, pagam seus impostos
e votam em todas as eleições, o que deveria lhes garantir
o direito de viver em um país decente. Mas será que é
só isso mesmo? Será que é exatamente assim que as
coisas funcionam nos países ditos civilizados, desenvolvidos ou
"de primeiro mundo"? Será que tudo é uma questão de
latitude, que lá pra cima dá tudo certo e cá embaixo
estamos fadados ao fracasso? Ou será que os cidadãos desses
países agem realmente como cidadãos e não apenas como
consumidores? Que votam com mais consciência, sem eleger aventureiros
ou coronéis? Que participam ativamente da vida de suas comunidades?
Vamos imaginar que nós
não tenhamos nada a ver com isso mesmo, que o país esteja
inexoravelmente predestinado a seus problemas e fracassos. A saída
será, sem dúvida, o aeroporto. Mas, saída para quem?
Para a classe média, ora. À elite não interessa sair,
já que aqui ela desfruta de benesses e privilégios que certamente
não encontrará nem na Cote d'Azur; as classes mais baixas
só vão ao aeroporto para ver os aviões e os realmente
pobres certamente vivem muito longe dos aeroportos.
Imaginemos, então,
o país sem a sua jovem e promissora classe média, que nos
abandonou rumo aos Estados Unidos, à Europa, à Austrália
e ao Japão e está lá agora aprendendo a deixar o carro
na garagem ou a parar para pedestres quando está com ele, a levar
o lixo para a coleta seletiva, a economizar água e luz, entre outros
deveres dos cidadãos de primeiro mundo. Aqui fica o Brasil dos extremos
levado ao extremo, os muito ricos e os miseráveis, uma minúscula
Bélgica cercada por uma enorme Índia. Uma elite que consome
produtos importados e exporta sua renda para aqui apenas aproveitar as
facilidades e, de vez em quando, as praias do Nordeste; que fala uma língua
híbrida, com frases como "eu vou estar startando o processo ainda
hoje", "liga
para o delivery do fast-food".
E um resto, cada vez mais pobre, mais analfabeto, mais violento, menos
cidadão e que não entende o que a elite fala.
O cenário estará
perfeito para a instauração de um governo se não totalitário,
ao menos autoritário. As elites, que pagam planos de saúde
americanos, mandam os filhos estudar fora e contratam seguranças
particulares, se importarão cada vez menos com as obrigações
do Estado. O resto que se vire com suas escolas e hospitais públicos
e sua falta de segurança. Obrigação do Estado será
manter o conforto da elite. Vereador servirá (como se já
não fosse isso) para quebrar o galho e permitir um novo empreendimento
imobiliário comercial na zona 1. O resto, sem voz, que se esprema
nas periferias e nem ouse pensar em melhorar de vida.
O Brasil será o segundo
país do mundo a ter um apartheid. Não um apartheid racial,
mas o separatismo econômico. Curiosamente, numa situação
que em muito se parecerá com o Brasil do século XIX, antes
de D. Pedro I e da Princesa Isabel. E lá do primeiro mundo os que
emigraram dirão: "Está vendo, aquilo não tinha futuro,
o Brasil não tem jeito mesmo". Será?
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