| Sobre escrever
Deveria ter sido escritora.
Era isso o que eu esperava de mim. Mas isso não é o tipo
de coisa que acontece. Precisa-se ir atrás e eu não fui.
Como não fui a muitos
lugares, a muitos encontros. Comigo mesma. Escrever é um compromisso
com si mesmo. E, talvez, eu nunca tenha sido muito compromissada comigo.
A não ser com os meus
sentimentos. Sempre fui muito fiel a eles. Mas aos sentimentos pelos outros,
não por mim.
Portanto, não sou
uma escritora. Mas tenho o sentimento da escrita. A angústia. Como
se a qualquer momento eu tivesse que sentar e escrever.
Às vezes acho que
não escrevo por falta de domínio das idéias. Não
das palavras, das idéias, das imagens, das histórias. Escrever
o quê?
Meus escritos são
motivados por situações afetivas. Sempre penso em alguém
quando escrevo qualquer coisa. Acho que não é assim que os
escritores escrevem. Eles têm idéias. Não basta ter
sentimentos fortes para escrever. É preciso ter idéias.
Já escrevi poemas.
Os primeiros eram puro afeto transformado em palavras. Depois não.
Depois fui descobrindo o afeto pelas palavras. O trabalho com elas. As
rimas, o ritmo. Mas hoje é muito difícil escrever um poema.
Também não me tornei poeta.
Eu poderia escrever sobre
qualquer coisa. Sim, qualquer coisa é digna de ser escrita. Marguerite
Duras escreveu sobre a morte de uma mosca.
Muitas vezes sei que preciso
fazer determinada coisa, ela está lá, me esperando, e não
faço. Não é preguiça, é pior. É
uma razão desconhecida.
Assim é com o texto,
que fica esperando ser escrito.
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