| Paixão
Não sei se a gente
nasce com isso no sangue ou se é uma coisa que se vai aprendendo
a amar com o tempo. Só sei que quando a gente gosta mesmo disso,
se emociona profundamente - para o bem e para o mal. É uma emoção
arrebatadora. E eu não falo só do prazer de um gol, da alegria
de uma vitória (melhor ainda se for de virada), mas do deleite de
se ver uma jogada bem feita, uma jogada de efeito.
Torcer por um time é
uma das maiores emoções que alguém pode ter. Apesar
de futebol não ser só torcida. Gostar de futebol é
ter prazer assistindo a uma partida mesmo que seu time não esteja
em campo, coisa que quem não gosta de futebol dificilmente vai entender.
Ainda mais se terminar zero a zero. Claro que é fantástico
ser testemunha de uma goleada histórica, mas o futebol também
proporciona a alegria de um drible desconcertante, de uma defesa milagrosa,
até de uma bola na trave.
O drible é aquela
jogada mágica, inesperada, que acaba com o adversário e,
mesmo que não ganhe o jogo, pode fazer com que você ganhe
o seu dia. E tem aquela jogada cada dia mais rara em nossos gramados, a
tabelinha. A tabelinha é o drible coletivo.
Ver o seu goleiro fazer uma
defesa milagrosa é tão bom quanto ver o goleiro adversário
tomar um frango. Mas quando o gol não sai porque o goleiro fez uma
daquelas defesaças, a gente nem fica tão triste assim, há
que se reconhecer o mérito do bom goleiro. Duro mesmo é quando
o artilheiro perde um daqueles gols que até a vó da gente
faria.
Mas o coração
começa mesmo a bater num ritmo diferente assim que seu time sai
do túnel e entra em campo. A torcida explode, as bandeiras exibem
aquelas cores que, para você, são as mais lindas do mundo.
Quando isso acontece você já teve tempo para xingar o juiz,
pois o simples fato dele entrar em campo é um bom motivo para xingá-lo.
Daí é a vez do time adversário entrar em campo e a
delícia de vaiar sem dó.
Futebol é também
polêmica. Por mais que você veja o replay, sempre vai ficar
uma pontinha de dúvida se foi mesmo pênalti ou não,
é assunto para a semana inteira. Você também sempre
vai maldizer a lei de impedimento quando o bandeirinha errar contra o seu
time, mas vai sempre agradecer por ela existir quando for o atacante adversário
que estiver impedido.
Agora, falando da paixão
- afinal de contas, o futebol não vive sem ela - tem coisa melhor
do que discutir o clássico do último domingo com o torcedor
do time adversário? Tem sim, é tirar um sarro porque o seu
time ganhou de goleada. Ou de gol de mão, impedido, no último
minuto, quando o time dele jogou melhor. Quer alegria maior que comemorar
a conquista de um campeonato? Não importa nem o campeonato, se é
uma dessas invenções caça-níqueis dos cartolas
ou se é o mundial interclubes, o importante é ser campeão.
O importante é ter mais títulos que o seu arqui-rival.
Você deve estar estranhando
eu até agora não ter falado sobre a seleção.
Sim, é uma maravilha também ver a seleção disputar
uma Copa do Mundo e maravilha maior ainda ganhar essa Copa. Mas é
que, para mim, quem é torcedor fanático de verdade torce
mais pelo seu time que pela seleção. E torcedor de carteirinha
não tem essa de torcer por um clube em São Paulo, por outro
no Rio e ainda ter um time de preferência no campeonato alemão.
No coração do torcedor apaixonado só tem lugar para
uma bandeira.
Não é uma delícia
também lembrar dos craques do passado? E sempre achar que eles jogavam
muito melhor do que esses pernas-de-pau de hoje. Saber de cor a escalação
daquele time invencível e todos os títulos estaduais que
seu time conquistou. Afirmar que o ponta-esquerda autêntico tem feito
uma falta enorme ao futebol e que não temos mais bons laterais-direito.
Ter orgulho de dizer para que time torce mesmo que ele esteja em último
lugar no campeonato. Coisas que têm o sabor de um bom vinho para
quem tem a sorte de ter essa paixão na vida.
Uma paixão que, como
toda boa paixão, não se explica. Vive-se intensamente. Tanto
que, por mais que a gente reclame que os jogadores não têm
mais amor pelo time, que os cartolas estraguem tudo com suas politicagens
e que a coisa toda esteja ficando comercial demais - e tudo isso é
verdade -, quando a bola começa a rolar é uma emoção
que não tem tamanho. Uma coisa que não sei se nasce com a
gente ou se a gente aprende a amar a cada jogo.
.... |