| Sobre lavar louça
Devo dizer que sempre quis
escrever um texto cujo título fosse assim, "sobre" alguma coisa.
Acho que com um título desses a gente lê com mais gosto. Título
assim também facilita a vida do autor, que não precisa ser
muito criativo, diz sobre o que é o texto e pronto.
E ainda fica elegante, dá
seriedade a qualquer assunto. Ainda mais quando o assunto sobre o qual
o "sobre" se refere é genérico. Acho até que se as
professoras mudassem o título das redações de "Minhas
férias" para "Sobre férias" seriam levadas mais a sério.
Na realidade, acho que minha
predileção por este tipo de título se dá por
causa do meu horror a títulos. Não, não que eu ache
que as coisas não devessem ter títulos. Longe disso. Os títulos
facilitam muito a nossa vida. Seria muito difícil comprar livros
ou discos, por exemplo, se eles não tivessem título. É
certo que muitas vezes o título engana. Você acha que o filme
é um policial eletrizante e na verdade é uma pornochanchada.
Eletrizante.
O meu horror é a dar
títulos. Escrever até que é fácil. Difícil
mesmo é dar o título certo. Ou ele é longo demais,
ou piegas demais, ou vago demais, e por aí vai.
Daí a eficiência
dos títulos "sobre". São sucintos, objetivos, instigantes
até. Não deixam margem para dúvidas. Se o que vem
depois do "sobre" não interessa, melhor nem começar a ler.
E são práticos, não se perde tempo na hora de escolhê-los.
Pois dar um título
a um trabalho é como lavar louça. Uma aborrecida, porém
essencial tarefa a que devemos nos dedicar depois do principal - escrever
ou comer, conforme o caso.
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