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Ócio criativo

Quando a gente está trabalhando passa a tarde pensando como seria bom estar em casa, vendo televisão e assaltando a geladeira a cada meia hora. Mas como é horrível passar a tarde em casa, comendo em frente à televisão porque se está sem trabalho. 

Claro que a cidade está cheia de programas que você pode fazer durante os seus dias de desemprego, mas praticamente todos eles envolvem gastos e como você está sem trabalhar, a última coisa que deve fazer é gastar dinheiro. 

Daí você começa a pensar em todos aqueles projetos que acabaram ficando engavetados, por que não colocá-los em prática agora, que você tem tempo? É, você tem tempo mas acaba faltando ânimo. Você pensa em falar com os amigos, colocar em dia seus telefonemas, mas descobre que está todo mundo ocupado, com mais o que fazer. 

O jeito é ler, é barato e não incomoda ninguém. Se não dá para comprar livro novo, não faz mal, olhando bem na estante a gente sempre encontra um livro que comprou e acabou não lendo, é chegada a hora dele. Foi assim que eu comecei a ler Suave é a Noite, do Scott Fitzgerald, um clássico que repousava virgem na minha estante. 

A tradução não é das melhores e sinto que estou perdendo muito da obra, mas mesmo assim a história é muito interessante. Mais que a história, a época é sedutora. Ela me faz até perguntar se estamos no século 21 mesmo. Digo isso porque acredito que o século 20 só começou realmente na década de 20. É, as duas primeiras décadas na verdade ainda eram o século 19, por mais que os historiadores digam que o século em que nascemos começou em 1901. Assim, quem me garante que já entramos com tudo no terceiro milênio? 

O que nos fez realmente viver no século 20 foi a 1ª Guerra Mundial. Pense bem, o século 20 começou pra valer depois da guerra, com as melindrosas, o automóvel e a indústria cinematográfica. Com os movimentos artísticos que partiam de Paris, que por sua vez era invadida pelos americanos modernos em busca de cultura e diversão. 

A década de 60 entrou para a história como a década revolucionária - política, social, comportamental e sexualmente falando. Mas se você olhar bem vai ver que os anos 20 foram a década realmente transgressora. Só o que as mulheres conquistaram naqueles anos não foi brincadeira. Elas começaram a votar, fumar e dirigir, cortaram os cabelos e vestiram modelitos que chocavam os mais velhos. 

E ainda teve uma explosão artística que virou tudo de cabeça pra baixo. Mário de Andrade está aí para não me deixar mentir. Dadaístas, surrealistas e modernistas mostraram ao mundo que arte era muito mais do que aquilo que se estava acostumado a ver, ler e ouvir. 

Tenho saudades dos loucos anos 20 apesar de ter nascido bem depois deles. Fico pensando se ainda há espaço no mundo para uma época tão intensa. Adoraria ter nascido junto com o século passado para ter vivido todo o glamour e toda a ousadia da década de 20. Teria testemunhado tudo de interessante que aconteceu no século passado e não teria que ver a sem-gracice em que tudo se transformou. 

Mas já que chegamos até aqui, tentemos fazer da nossa uma época pelo menos um pouco mais divertida. Por isso, chega por agora porque vou preparar meu manifesto literário.

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