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Ele morreu. Palmas pra ele.

Não sei quando isso começou nem se é uma manifestação tipicamente brasileira ou se ocorre em outras partes do mundo. Mas de qualquer modo me incomoda muito, acho que é uma coisa completamente fora de propósito. Eu chego a ficar constrangida, apesar de nunca ter presenciado uma cena dessas ao vivo, até hoje só vi pela televisão. 

Estou falando sobre o hábito de se aplaudir enterro. É uma coisa horrorosa, o caixão passando com o morto lá dentro e o povo aplaudindo. É palma pra tudo que é lado, em enterro de artista, de político, de esportista, de qualquer pessoa pública. 

Afinal, aplaudem o quê? A impressão que me dá é que esses aplausos significam um "palmas pra ele que ele morreu!". Só falta ter o animador de auditório puxando o féretro. Claro que eu sei que não é nada disso, que é uma maneira (estúpida) que as pessoas encontraram de homenagear o morto. Mas será que não tinha um outro jeito de prestar essa homenagem? 

Outro dia fui a uma missa de sétimo dia e no final da cerimônia o viúvo subiu ao altar e leu um texto muito comovente em homenagem à sua esposa recém falecida. Ao final da leitura, adivinha!? Aplausos. 

Será que ninguém percebeu ainda que o silêncio é uma forma profunda de homenagem? Não se tocaram que se faz um minuto de silêncio quando se reverencia um morto e não um minuto de aplausos? E não se respeita nem esse minuto de silêncio. Já reparou o que acontece em um estádio de futebol quando se faz um minuto de silêncio por alguém querido pelo povo que tenha morrido? As torcidas começam a gritar o seu nome e lá foi o silêncio por água abaixo. Você pode dizer que torcedor de futebol é inculto, que não sabe como essas coisas funcionam, mas eu garanto que o pessoal que estava na missa que eu fui não era nem um pouquinho ignorante. 

A primeira vez que eu vi esse tipo de coisa acho que foi no enterro do Tancredo. Lembro do cortejo descendo a Rebouças e o povo nas calçadas aplaudindo freneticamente como se quem estivesse passando por ali fosse um pop-star e não um caixão de defunto. Daí pra frente foi aplauso pro Senna, pro Renato Russo, pro Covas e até para alguns mortos menos cotados. O único que se livrou desses irritantes aplausos foi o Ulysses Guimarães. 

Eu acho que morte é uma coisa silenciosa, mas parece que as pessoas não conseguem mais conviver com o silêncio, não entendem mais todo o significado que ele tem. Então, dá-lhe cantar e aplaudir enterro. Mas eu garanto que seria muito mais comovente se o cortejo fosse passando e o povo ficasse lá, observando, num silêncio absoluto. Quando há muita gente junta, o silêncio absoluto impressiona muito mais que qualquer manifestação ruidosa. 

Por isso, quando eu morrer, por favor, nada de aplausos.

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