| Adoro palavras
Adoro palavras. Afinal, sem
elas eu não estaria aqui escrevendo e nem poderia jogar conversa
fora. Há palavras de personalidade forte, como "extravagância"
ou "obrigação". Outras são meigas, como "rosquinhas"
e "jujuba". Há também as poéticas "lua", "pirilampo"
e "borbulhar", e palavras muito feias. Para mim as piores são "cônjuge",
"regozijo" e "exegese". Acho que não gosto muito de gês e
jotas.
E é engraçado,
existem palavras que combinam muito bem com o seu significado e outras
que não têm nada a ver com a sua definição.
Quer ver? O "não" é perfeito, não poderia ser outra
coisa além de uma negação. "Esbodegado" é outra
boa, se alguém lhe fala que está esbodegado, só pode
mesmo estar... esbodegado.
Mas tem as palavras que,
certamente, deveriam ter outro significado. Veja o caso de Itaqüaquecetuba,
jamais poderia ser nome de cidade, é um palavrão nato. Experimente
dizer a alguém "eu quero mais é que você se itaqüaquecetuba"
e veja se a pessoa não se ofende. Como "tilápia", que não
deveria ser nome de peixe e sim significar folga, preguiça: "eu
me mato de trabalhar e ele lá, na maior tilápia."
Claro, estamos falando de
convenções e nem sempre quem convenciona alguma coisa o faz
com coerência. Você pode dizer ah, mas tem a raiz da palavra,
suas origens, que muitas vezes são latinas ou gregas (ou tupis,
como no caso de itaqüaquecetuba). Tudo bem, eu digo que ainda assim
são convenções, latinas, gregas ou tupis, mas convenções.
E isso não acontece
só com o português não. A palavra italiana para morcego
é pipistrello. Pode uma palavra tão bonitinha dar nome a
um bicho tão horrendo? E "blast", em inglês, não deveria
significar nojo? "What a blast!" Mas não, para sua decepção,
blast é uma rajada de vento, o som de corneta, explosão,
enfim, um monte de coisas menos nojo. E o espanhol também não
escapa, é evidente que "duda" só poderia ser uma brincadeira
de criança, até consigo imaginar os espanhóizinhos
(ou argentinozinhos, ou peruaninhos, mexicaninhos, enfim) dizendo "Mamá,
mamá, vamos jugar la duda?" Entretanto, "duda" é coisa muito
séria, existencial até, é a nossa dúvida. Viu
como uma silabazinha só pode fazer toda a diferença?
Outra coisa curiosa é
a junção de palavras para formar uma expressão que
nem sempre tem muito a ver com o sentido literal de cada palavra isolada.
Quando um casal está prestes a se casar, por exemplo, ele diz que
"os papéis já estão correndo". Para aonde correm esses
papéis? Bem, se você encontrar papéis correndo pela
rua pode saber que alguém vai casar.
Isso acontece também
no futebol, que usa as palavras de um jeito todo especial mesmo, mas tem
uma expressão que é muito engraçada: "escanteio de
mangas curtas". Quem seráque inventou essa história que escanteio
tem mangas?
Aliás, manga é
uma palavra polivalente, nomeia o braço da camisa, a fruta e até
abajur tem manga! Será que faltou criatividade? Se faltou para a
manga, faltou também para quem deu nome às peças do
motor dos carros. Onde já se viu motor ter cebolinha, panela e chicote?
Eu sempre me pergunto quem inventou as palavras, como elas surgiram. Não
essas adaptações que o povo vai fazendo e são incorporadas
à língua, mas as palavras primitivas. Qual terá sido
o primeiro nome para faca? Ou para amor?
E assim vão as palavras,
brincando com a gente, fazendo pensar e traduzindo de uma maneira que todos
entendam as loucuras que passam em nossa cabeça.
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