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Você é daqueles?

Conheci um rapaz que dizia que São Paulo se dividia em dois grandes grupos: os que freqüentavam o Gallery e os que iam ao L'Onorabile Società (sim, isso faz tempo...). 

Nunca entendi qual era a diferença entre eles, pois para mim eram todos burguesinhos (sim, isso foi antes de surgirem os mauricinhos). E o pior é que isso me causou um problema existencial, já que sempre me considerei paulistaníssima, mas nunca freqüentei nenhuma das duas casas. 

Engraçada essa mania que a gente tem de classificar a humanidade em grupos e considerá-los excludentes. Isto é, se você faz parte de um, jamais poderá integrar o outro, o que é tido como um desvio de caráter. 

Certos temas rendem classificação em mais de dois grupos. É o que acontece em relação a cães e gatos, por exemplo. Há os que odeiam os dois, os que adoram cães e detestam gatos, os que gostam dos gatos e desprezam cachorros e, finalmente, os que gostam dos dois. 

Uma das mais importantes divisões da humanidade é aquela originada pela maneira de colocar o arroz e o feijão no prato. Essa é determinante mesmo. Quem coloca o feijão por cima não entende como alguém pode colocá-lo por baixo do arroz e nenhum dos dois admite a disposição lado a lado. 

Lá está você, na fila do restaurante por quilo se servindo e, naturalmente, coloca o feijão em cima do arroz. Seu colega de escritório olha para o prato, olha para você e diz: "ah, você é daqueles que colocam o feijão por cima...", como se isso explicasse muita coisa.

Já na mesa você pede um chopp sem colarinho e outro diz: "aha! Eu tinha certeza que você era daqueles que tomam chopp sem colarinho!", como se isso definisse seu caráter.

E essas divisões da humanidade têm sido levadas tão a sério que daqui a pouco nos processos de seleção de funcionários o pessoal do RH vai começar a perguntar: "você é daqueles que amam ou que odeiam o Seinfeld?" 

As categorias parecem ser infinitas. Além das clássicas fumantes e não fumantes, destros e canhotos ou notívagos e diurnos, você pode ser daqueles que cortam macarrão ou daqueles que consideram isso um crime, dos que lêem manuais de instruções ou dos que fuçam até entender como funciona o diabo desse aparelho. 

Você acha que acabou? Têm ainda aqueles que guardam as meias enroladas e os que guardam as meias dobradas. Os que apertam o tubo de dente pelo meio e os que vão pelo finzinho. 

Para que não pairem dúvidas sobre o meu caráter, deixo claro aqui que não gosto de animais por perto, coloco o feijão por cima do arroz, tomo chopp com colarinho, odeio o Seinfeld, sou fumante, destra e notívaga, acho um crime cortar macarrão, não leio manuais de instruções, guardo as meias dobradas e aperto a pasta de dente pelo fim. 

Ah! E o meu bife mal-passado, por favor, porque carne esturricada é uma heresia. 

 
 

Sobre o tema, leia também Sabe aqueles?, da Roseli.
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