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Segunda pessoa

Outro dia recebei um e-mail da mulher do meu pai. (Eu me recuso a chamá-la de madrasta porque quem tem madrasta é a Branca de Neve). Mas precisa ver que coisa linda. Ela é gaúcha, portanto, não fala "você", fala "tu". E o que me encantou no e-mail: ela escreve na segunda pessoa! 

Aqui em São Paulo segunda pessoa é uma coisa meramente teórica. Depois que sai da escola nunca mais se vê. E mesmo na escola é uma complicação pra gente aprender essa tal de segunda pessoa. A primeira é fácil, sou eu. A terceira também, é ele. Mas a segunda... 

"O que é a segunda pessoa, pssôra?" 
"É o tu." 
"Mas quem é o tu?" 
"É você." 
"Ah..." 

Isso para ficar só no singular, porque se for para o plural então... 

Na realidade, a gente até usa a segunda pessoa aqui em São Paulo sim, só que como pronome totalmente fora de lugar, ao lado do "você". O que é uma coisa horrível. 

Mas para os meus ouvidos paulistanos, que já se acostumaram com o "teu", isso acaba não sendo tão horrível quanto ir a Santos ou ao Rio e ouvir "tu vai". Aí dói demais. 

A segunda pessoa merece respeito. Merece ser bem conjugada. Ela traz ainda mais beleza ao Português. 

Foi porque essa conjugação anda cada vez mais rara e a língua portuguesa muito, mas muito mal tratada (e isso rende uma outra crônica), que eu realmente fiquei encantada com o texto da mulher do meu pai. 

Não é lindo ler um "como vês..."? Ou um "beijo para ti"? E tudo isso num texto escrito em 2001, não é coisa de Castro Alves ou de José de Alencar. É, porque nós, paulistanos, temos a mania idiota de achar que a segunda pessoa faz parte do passado da língua. 

Por que diabos fomos inventar esse "você" tão sem graça? E o pior é que de "você" virou "cê" e - eu juro que é verdade! - tem gente escrevendo "se" no lugar desse "cê". 

Pois é, além de churrasco e chimarrão os gaúchos têm muitas outras coisas boas. Uma delas, sem dúvida, é tratar com carinho e respeito a segunda pessoa.

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