| Entre parênteses
Abre parênteses. Na
realidade não era nada disto o que eu queria escrever. Eu queria
mesmo era criar uma obra-prima. Claro, todo mundo quer criar obras-primas.
Fecha parênteses.
É entre linhas, travessões,
aspas e parênteses que a verdadeira intenção do texto
se revela. O que, aparentemente, não cabe na idéia principal,
na realidade, é a idéia principal. Mesmo se não tiver
travessões, aspas ou parênteses, o texto sempre terá
entrelinhas.
As palavras estão
ali de certo modo como biquínis, mais mostrando do que escondendo,
mas sempre escondem alguma coisa. E é aí que os parênteses,
travessões, aspas e entrelinhas surgem como aquela onda que arrasta
a parte de cima do biquíni.
Abre parênteses. Acho
que a gente não sabe quando está criando uma obra-prima.
A gente vai fazendo, achando que é só uma obra. Depois de
pronta é que se descobre que ela é prima. Fecha parênteses.
Por isso eles são
a parte mais interessante - e maldosa - do discurso. Eles são, por
exemplo, a alma de uma fofoca. Ou mesmo de um artigo político sério.
Nem a filosofia sobrevive sem eles.
Não sei qual é
a origem desses sinais gráficos na escrita, mas tem cara de ser
coisa dos romanos, que previam tudo e eram bastante ardilosos. Também
não sei se eles existem em todas as línguas. Acho que nunca
vi caracteres chineses ou árabes entre parênteses. Não
deve ser fácil para eles viver sem esses artifícios reveladores.
Abre parênteses. Pode-se
não saber quando se está criando uma obra-prima, mas com
certeza a gente sabe quando não está criando uma. Você
sabe na hora que aquela sua criação não é prima,
é no máximo cunhada. Fecha parênteses.
Mas fico imaginando o cara
que criou os parênteses. Ele devia estar com aquela sensação
de "quero mas não quero" dizer isso. Ou "quero mas não posso".
E inventou aquelas curvinhas que separam da pretensa idéia principal
o seu comentário mordaz.
Abre parênteses. É,
não criei uma obra-prima, mas escrevi. Isso é o que importa.
Fecha parênteses.
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