| Eu odeio Halloween
Sempre gostei do mês
de outubro. É primavera, tem o Dia das Crianças. Mas de alguns
anos para cá tenho ficado muito irritada em outubro. Não
é culpa do coitado do mês, que tem sido apenas uma vítima.
Minha irritação é causada por abóboras, esqueletos,
fantasmas e bruxas.
Não que esses seres
monstruosos me assustem, eles me irritam mesmo. Lembro quando era criança
e lia os quadrinhos do Disney. De vez em quando aparecia numa história
o dia das bruxas. Era um tal de Huguinho, Zezinho e Luisinho se fantasiarem,
escavarem caretas em abóboras e saírem batendo nas casas
dizendo “gostosuras ou travessuras?”. Eu achava aquilo tão normal
quanto ninguém ali ter pai ou mãe, só tios. Ou seja,
aquilo estava muito longe da minha realidade, para mim só existia
mesmo nas revistinhas do Disney. Monstro que me assustava era mesmo a Cuca,
a Mula-sem-cabeça, o Lobisomem.
Vai daí que a classe
média brasileira começou a fazer de Miami seu destino predileto
nas férias e que as escolas de inglês resolveram importar
as festas americanas. Pronto, foi o que bastou para que o tal do Halloween
invadisse a terra das festas juninas e do saci-pererê.
Agora tem festa de Halloween
pra tudo quanto é lado, o pessoal enfeita (enfeita?) a casa com
abóboras e acho que nem sabe muito bem que está celebrando
uma tradição celta. Fica a abóbora pela abóbora,
a bruxa pela bruxa, sem significado nenhum. E o que é pior, tenho
a impressão de que se não fizermos algumas coisa, o Halloween
vai começar a ofuscar o nosso tão tradicional Dia das Crianças.
Prestem atenção nisso, crianças!
Nada contra que os americanos
comemorem o seu Halloween, faz parte de suas tradições, mas
aquelas abóboras, decididamente, não têm nada a ver
com a gente. Daqui a pouco vamos começar a assar peru no Dia de
Ação de Graças.
Você pode me dizer
que as paulistaníssimas festas de S. Gennaro e de Nossa Senhora
Achiropita também não fazem parte de nossas tradições,
que são italianas. E eu vou concordar. Só que vou lembrar,
primeiro, que essas festas foram trazidas pela enorme colônia italiana,
o que não é o caso do Halloween, e, segundo, que elas ficam
lá quietinhas (maneira de dizer...), uma na Mooca, outra no Bixiga.
Ou seja, se você nem quiser saber delas, não vai ser incomodado,
como hoje é por abóboras, esqueletos, fantasmas e bruxas
que em outubro saem do além, dos cemitérios e sei lá
mais de onde e invadem o comércio, as escolas e as ruas de São
Paulo.
Queria muito continuar vivendo
com a certeza de que Halloween, só mesmo em história em quadrinhos.
E se essa festa boba continuar a dar as caras por aqui, vou fazer um adesivo
para o meu carro “Eu odeio Halloween”, que é para espantar as bruxas.
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