| Uma noite de sônia
Insônia é uma
dessas palavras que eu acho engraçadas. Inveja é outra. Acompanhe
meu raciocínio: existe inverdade porque antes existe uma verdade,
assim como acontece com inconstância e constância, delicado
e indelicado, incerto e certo.
Pois é, veja é
conjugação verbal, não é um substantivo que
seja o oposto à inveja. Além disso, esse veja aí,
se fosse o contrário de inveja deveria mesmo é ser véja,
assim aberto.
Seguindo esse brilhante raciocínio,
a gente chega à conclusão que existe a insônia mas
não existe a sônia. Quer dizer, existe um monte de Sônias
por aí, mas não é o oposto delas que nos deixa noites
inteiras sem dormir. E apesar da proximidade sonora, não dá
para dizer que sônia seja sinônimo de uma boa noite de sono,
mesmo que origem do nome tenha alguma coisa a ver com isso.
Tem uma outra categoria de
palavras engraçadas, aquelas que têm uma letra a mais ou a
menos. Quer ver? Sobrancelha obviamente tem um m a menos. Todo mundo concorda
que deveria ser sombrancelha, aliás, é assim que todo mundo
fala. Até porque a sobrancelha tem tudo a ver com sombra, ela está
ali para fazer uma sombrinha pros nossos olhos (para ser tirada pelas mulheres
e para dar uma cara de mau a alguns homens).
Outra que tem uma letra a
menos é muito. Você já viu alguém falar a assim
“muito” sem estar resfriado? Aposto que não. Todo mundo que eu conheço
fala “muinto”.
Mas tem aquelas palavras
com letra sobrando. Fala se chimpanzé não tem nada a mais.
Claro que tem, esse m no meio do caminho, que deveria estar lá no
muito. Aquele macaco simpático tem muito ? ou melhor, muinto ? mais
cara de chipanzé que de um pedante chimpanzé.
Por fim, há as palavras
que, além de ter letra a mais, têm letra trocada. Dão
um drible em todo mundo. Acertou, a mais clássica delas é
mesmo ela, drible. Essa jogada genial que fez do Garrincha um deus e encanta
até mesmo quem não entende nada de futebol quando dita se
transforma no maior adversário dos jogadores de futebol. Não
em campo, já que zagueiro bom rouba a bola e zagueiro ruim dá
carrinho, mas na hora da entrevista o drible derruba perna-de-pau e craque
indistintamente (olha aqui outra que comprova a teoria lá de cima,
o indistinto existe porque há o distinto).
Já ouvi até
narrador de futebol falar dibre, que é a maneira como a jogada é
conhecida pelos boleiros. Sem o r intruso (ih, achei outra da categoria
da insônia! Ou você já viu um truso por aí?)
e com o l devidamente trocado pelo r.
Tem outras palavras curiosas
soltas por aí, como convescote e doravante. Mas essas são
de outra categoria e ficam pra outra vez.
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