| Seqüestro
Eu não agüentava
mais. Aquilo tinha de ter um fim. Ficava pensando naquela frase "no fim
tudo dá certo, se não deu certo é porque não
chegou no fim ainda" que dizem ser do Fernando Sabino, mas eu não
sei se é mesmo e, se for, o estilo deve ser um pouco melhor. Eu
já nem me preocupava que desse certo, eu só queria que aquele
tormento acabasse.
Aliás, certo eu já
sabia que não iria dar mesmo. Onde eu estava com a cabeça
quando fui marcar um encontro com o "cara interessante" que conheci numa
sala de bate-papo da internet? Eu sempre disse que essas coisas eram uma
roubada, mas ele, com seu jeito "interessante", acabou me convencendo que
deveríamos nos conhecer pessoalmente.
Agora eu estava ali, sentada
na mesa de uma pizzaria, conversando com um sujeito absolutamente chato
e sem saber o que fazer para ir embora logo dali. Ele não parava
de falar. Coisas tão "interessantes" como as aventuras dele no Exército,
sua teoria sobre as guerras serem uma maneira de manter o equilíbrio
populacional do planeta e como andava bem o Maverick preto que ele teve.
Mas eu juro que ele não
era assim quando a gente batia papo pela internet. Ele falava de cinema
e nunca comentou que gostava do Stallone. Ele falava coisas inteligentes,
eu juro. É verdade que algumas me pareceram familiares, mas não
achei que ele fosse do tipo de decorar frases de livros para parecer mais
inteligente. E, oras, se ele tinha decorado é porque ao menos tinha
lido o livro, o que até era um bom sinal.
O problema é que eu
não agüentava mais aquele cara sem graça na minha frente.
Sem graça e falante demais. Olhei para o celular em cima da mesa
e pensei como seria bom se alguém me ligasse, eu poderia fingir
uma emergência e sair correndo. Foi aí que eu tive a idéia
brilhante.
Primeiro eu coloquei o celular
discretamente dentro da bolsa. Tomei mais um gole do chopp e pedi licença
para ir ao banheiro. Ele era tão boçal que não iria
perceber. No banheiro liguei para uma amiga e disse que ela precisava me
fazer um grande favor e que eu daria asexplicações mais tarde.
Pedi para ela me ligar em dez minutos e para não dar bola para o
que eu dissesse.
Voltei para a mesa e ele
começou a me contar da sua última pescaria no Pantanal. Aquilo
não era verdade, como ele poderia ser tão interessante pela
internet e tão chato pessoalmente? Será que não era
ele que falava comigo pelo computador? Vai ver era daqueles maníacos,
que pediam para uma irmã, um amigo, sei lá, entrar em salas
de bate-papo até convencer uma estúpida como eu a sair e
depois ele tentava jogar o seu xaveco.
Finalmente o celular tocou.
Pedi licença para atender e fui logo falando: "Mãe? Por que
você está chorando?" Daí passei para o "meu Deus!",
"quando?", "como?", "está bem, estou indo já para aí."
Apesar de toda a sua idiotice, ele percebeu que algo sério estava
acontecendo. Disse que meu avô velhinho tinha levado um tombo e estava
desacordado. Óbvio que na hora ele se ofereceu para me acompanhar.
Disse que era melhor não, que minha mãe não ia gostar
de me ver chegando com um desconhecido. Peguei a bolsa e o celular e saí
correndo. É claro que, a essa altura, eu não ia me preocupar
em pagar a conta. Ainda pude ouvir um "amanhã eu te ligo" e xinguei
muito a mãe de Graham Bell.
Coloquei o celular na capota
para pegar as chaves na bolsa e abri o carro. Sim, isso mesmo, você
já percebeu, eu esqueci o celular lá em cima e saí.
Eu sei que é absurdo, mas aconteceu, fazer o quê? Não
sei bem a que distância ele caiu, pelo o que o cabeleireiro falou,
foi numa curva, a um quarteirão da minha casa, para onde eu fui
correndo ligar para a minha amiga e explicar do que ela tinha me livrado
com o seu telefonema. É claro que a conversa foi longa, eu nem tinha
contado a ela ainda que havia conhecido um cara "interessante" pela internet.
Tive que contar tudo, desde o início.
Já estávamos
falando há mais de uma hora quando ouvi as sirenes lá embaixo.
Logo depois o interfone tocou e o porteiro disse que a polícia estava
à minha procura. Só podia ser um engano, claro. Mas logo
depois eu pensei "será que o sujeito não pagou a conta na
pizzaria?", não, isso não tinha cabimento, mesmo que ele
tivesse fugido sem pagar o garçom não poderia saber onde
eu morava. Em todo caso, desliguei o telefone e desci para ver o que estava
acontecendo.
O policial perguntou se eu
era eu. Respondi que sim. Então ele perguntou se eu estava bem e
há quanto tempo havia sido libertada. Disse que sim, estava bem
e, que eu soubesse, sempre havia sido uma mulher livre. Ele falou que era
natural que as pessoas se sentissem confusas depois de um seqüestro
e que era melhor eu acompanhá-lo até a delegacia para prestar
depoimento. Perguntei a que seqüestro ele se referia e tudo o que
ele disse foi para eu não me preocupar, que estava tudo bem agora,
que o delegado iria cuidar do meu caso.
Ainda tentei argumentar que
estava acontecendo um engano, mas ele foi categórico, se eu era
eu não havia engano algum e que, se eu me sentisse mais segura com
isso, ele poderia me acompanhar até o apartamento para eu pegar
meus documentos. Agradeci, mas iria muito bem sozinha. No caminho para
o elevador pensei em fugir pela garagem. Mas, fugir por quê? Eu não
tinha feito nada errado, era melhor mesmo ir até a delegacia e esclarecer
essa história de uma vez por todas já que aquele guarda burro
pelo jeito não estava entendendo nada.
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