| O homem do 10º andar
Elas eram vizinhas. Mais
que isso, elas eram amigas. Aliás, só se tornaram vizinhas
porque eram amigas. Então elas eram amigas vizinhas, o que é
muito diferente de vizinhas amigas. Uma morava no 12º andar, bem em
cima do apartamento da outra no 11º. Viam-se todos os dias, principalmente
jantavam juntas, já que não existe solidão mais solitária
que aquela que se sente ao comer sozinho. Às segundas e quartas
no 11º e às terças e quintas no 12º. Sexta-feira
não era dia de jantar em casa, era dia de sair com os amigos ou,
na pior das hipóteses, jantar na casa da mãe para não
ter de cozinhar nem lavar louça.
Como eram amigas e vizinhas
e estavam sempre juntas, era natural que conversassem muito, que soubessem
tudo uma da vida da outra, que compartilhassem os problemas de trabalho
e os afetivos, que até rissem muito de tudo isso. Eram, enfim, cúmplices.
Como a Mary Tyler Moore e a Rhoda.
Todo os dias às sete
e meia da manhã a amiga do 12º saía para trabalhar.
E foi o que ela fez, pontualmente, naquela quarta-feira. Ela entrou no
elevador que logo parou no 10º andar. A porta se abriu e quem entrou
era a reencarnação de um deus grego. Aquele homem era maravilhoso.
Lindo, muito lindo e perfumado. Quem seria, namorado de alguém ou
um novo morador? Ele disse bom dia e ela mal conseguiu responder. Não
tirava os olhos dele e ele, por sua vez, não desgrudava os olhos
daqueles numerinhos em cima da porta que indicam em que andar se está.
Despediram-se na garagem com um simples até logo e ela tinha certeza
que seu dia seria muito bom, afinal, tem maneira melhor de começar
o dia do que encontrando um homem como aquele?
Quando saiu da garagem teve
o cuidado de reparar se a placa de aluga-se ainda estava pendurada na grade
do prédio. Não, não estava. Com a ajuda dos céus
aquele homem deveria ser o novo morador do prédio. Passou o dia
pensando nele, lembrando daquele rosto perfeito e sentindo aquele perfume
sedutor no ar. Não via a hora de chegar em casa para contar a novidade
para a amiga.
Durante o jantar, enquanto
contava o incrível encontro no elevador pela manhã e a amiga
ouvia com um entusiasmo crescente, arrependeu-se de ter aberto a boca.
Devia ter esperado um pouco mais, ter descoberto alguma coisa sobre aquele
homem, ter ao menos falado direito com ele, afinal, agora a outra também
ficaria de olho e ela estava tão bem ultimamente, tão bonita,
que poderia chamar mais a atenção do que ela própria.
Por que será que as mulheres sempre falam demais?
A vizinha de baixo ficou
curiosíssima. O mercado andava em baixa e não era toda hora
que aparecia um príncipe assim na vida de mulheres solteiras. Decidiu
que iria acordar mais cedo no dia seguinte para pegar o elevador das sete
e meia e conferir se o rapaz era mesmo tudo aquilo que a amiga havia dito.
Quinta-feira, sete e meia
da manhã. O elevador sobe até o 12º andar e pega a primeira
amiga. Desce um andar e lá está a vizinha, toda arrumada.
As duas se cumprimentam e ficam na expectativa do movimento do elevador.
Ele começa a descer lentamente e pára no 10º andar.
A porta se abre e, realmente, ele era tudo aquilo e um pouco mais. Os bons
dias de praxe e as duas se entreolham, ele, com o olhar fixo nos números
dos andares. Na garagem, disse até logo sorrindo. Foi o que bastou
para a moradora do 12º se arrepender de vez de ter contado sobre ele
à amiga. Ontem ele não sorrira, por que então sorriu
hoje? Só podia ser por causa da amiga.
Duas semanas assim, os três
juntos no elevador das sete e meia. As duas já não falavam
tanto sobre ele em seus jantares. Não era declarado, mas estavam
disputando qual das duas conseguiria um aproximação primeiro.
E ele não dava sinal algum de que iria facilitar o contato. Até
agora não tinham passado do "bom-dia e até logo", não
haviam chegado nem àquelas inevitáveis conversas de elevador
sobre as condições climáticas do dia.
Bem, se ele sai de casa todas
as manhãs é porque em algum momento do dia ele volta para
casa, pensou a do 11º, talvez esse seja o momento chave. E decidiu
chegar mais cedo em casa para ficar na garagem à espera do deus.
E esperou bravamente das cinco e meia da tarde até as nove da noite.
Foram longas horas ouvindo cds dentro do carro e ainda teve que se abaixar
no banco do passageiro para não ser vista quando a vizinha de cima
chegou, por volta das sete. Mas ela achava que valeria a pena, que seria
o primeiro passo, e estava orgulhosa da sua estratégia.
Quando ele finalmente chegou,
ela desligou o cd e fingiu estar chegando naquele momento também.
Encontraram-se na espera do elevador que, por sorte, estava no 14º
andar. Ela teria tempo para puxar uma conversa e tomou coragem para comentar
a coincidência de terem saído à mesma hora pela manhã
e estarem chegando juntos à noite. Ele sorriu - que sorriso maravilhoso
- e apenas concordou, sem esticar o assunto. Ela não queria parecer
ansiosa para conversar e começou a procurar a chave de casa dentro
da bolsa. O elevador chegou, entraram e ele, como sempre, olhos fixos nos
malditos numerozinhos. No décimo andar ele sorriu de novo para ela
e disse até amanhã.
Ela entrou em casa e a secretária
eletrônica estava cheia de recados da amiga de cima que tinha estranhado
o fato de seu carro estar na garagem e ela não estar em casa. Inventou
uma vontade súbita de andar à pé pelo bairro e, não,
ela não contaria seu segundo encontro do dia para a amiga, afinal,
ela agora estava na frente da outra na corrida para se aproximar do deus
do 10º andar. Naquela noite não jantaram juntas já que
a moça do 12º tinha desistido de esperar.
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