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Na noite seguinte ela não
só ficou à espera dele na garagem como providenciou vários
pacotes para carregar. Às nove horas ele chegou e ao vê-la
toda atrapalhada com tantos embrulhos na mão foi todo solícito
ajudá-la. A tática tinha dado certo. Ele levou os pacotes
até o elevador e se ofereceu para levá-los até o seu
apartamento, era só um andar mesmo, não custava nada. O coração
dela disparou, era uma oportunidade e tanto. Mas ele não aceitou
o convite para entrar, ficava para outro dia, quem sabe combinamos também
com a sua amiga lá de cima. Tanto sacrifício e será
que ele estava interessado na outra? Era demais.
O elevador das sete e meia
tinha se tornado um ritual, eles começavam até a ganhar uma
certa intimidade, mas não era toda noite que ela ficava à
espera na garagem. A amiga poderia desconfiar e ele também, não
queria dar na vista. Do nada, numa manhã ele perguntou a elas se
teriam programa para aquela noite, se não queriam tomar um vinho
na casa dele, agora que o apartamento já estava começando
a ter cara de casa de verdade, já tinha até sofá.
Não tinha dito nada antes porque estava tudo uma bagunça.
As duas mal puderam disfarçar a empolgação e combinaram
o encontro para as nove e meia.
É claro que uma não
queria deixar para a outra a chance de chegar primeiro e ficar alguns momentos
a sós com ele, por isso combinaram que a de cima passaria na casa
da de baixo e iriam juntas para o décimo andar. A noite foi muito
agradável, com bom vinho, boa música e boa conversa. Ele
talvez nem tenha mesmo percebido o clima de disputa não declarada
entre as duas.
Antes de ir para casa, a
do 12º parou na casa da amiga para os comentários de praxe.
Mas não é que, além de lindo, ele é inteligente
e simpático? Aquele homem era mesmo demais. Era muita sorte ele
ter vindo para tão perto delas. Nenhuma delas falou em retribuir
o convite, mas na manhã seguinte a vizinha do 12º não
perdeu tempo e convidou os dois para um jantarzinho sábado, em seu
apartamento. Ele aceitou na hora e a vizinha de baixo, morrendo de raiva
da rapidez da amiga, não teve alternativa a não ser aceitar
também.
Sábado à noite
a amiga de cima fez um jantar perfeito, tudo muito arrumado, comida boa,
sem dúvida ela havia ganhado terreno com essa jogada. O rapaz não
parava de elogiá-la. A vizinha de baixo não poderia perder
mais tempo e tinha que fazer alguma coisa para superar a amiga. Mas fazer
o quê para impressioná-lo? Sushi? Dança do ventre?
Bolo de fubá?
Homens são pegos pelo
estômago, mas como ela nunca tinha sido boa na cozinha, era melhor
não arriscar. Então, sem mais nem menos ela falou: "Que tal
um fondue em casa amanhã?". Os dois estranharam bastante o convite,
afinal, estavam em pleno verão. Mesmo assim eles foram e ela, é
claro, desistiu da idéia do fondue, fez mesmo um queijo e vinho,
tudo muito sofisticado, mas tudo comprado. Ele elogiou o seu bom gosto
e era isso que importava.
A partir daí eles
se tornaram um trio, estavam sempre juntos: no elevador das sete e meia,
em suas casas, cinemas, bares, restaurantes. Divertiam-se muito juntos
apesar das duas amigas continuarem com a disputa velada, havia uma tensão
crescente entre elas, nem mais jantavam juntas, tinham se tornado vizinhas
amigas. Na realidade era quase um concurso para ver quem conseguia armar
a artimanha mais inteligente e eficaz para atrair a atenção
dele. O que era estranho é que ele nunca havia demonstrado qualquer
tipo de interesse por nenhuma delas e nem parecia querer ficar a sós
com uma delas. Sempre que uma fazia um convite ele logo chamava a outra.
Cada uma começava a perguntar a seus próprios botões
se o negócio dele não seria outro.
Um dia ele intefonou para
as vizinhas e convidou-as para irem à sua casa, pois queria apresentá-las
a uma pessoa muito especial. Aí elas não tiveram jeito e,
antes de descerem, abriram-se sobre as desconfianças que já
vinham alimentando. Mas a única maneira de descobrir o que estava
acontecendo era ir até o apartamento dele. Foi o que fizeram.
Ele abriu a porta todo sorridente
e, enquanto elas entravam, disse: "vizinhas, quero lhes apresentar Ana,
a minha namorada". O choque talvez tenha sido maior do que se ele tivesse
dito que queria lhes apresentar "Mário, o meu namorado". Se fosse
assim, não teria jeito mesmo, mas uma namorada?
As duas tentaram um sorriso
mas já estavam completamente tomadas pelo ciúme. O pior era
que a tal da Ana era simpática e dizia que não via a hora
de conhecê-las.
As vizinhas ficaram ali o
mínimo de tempo possível. Uma disse que estava no meio de
uma arrumação de livros e a outra disse que tinha trabalho
a fazer. Antes de saírem, Ana ainda teve tempo para dizer que tinha
adorado conhecê-las e deveriam se ver mais vezes. Nem esperaram pelo
elevador, subiram correndo pela escada para o apartamento mais próximo.
Como ele podia ter uma namorada?
Como ele arranjava tempo para namorar se estava sempre com elas? Eles queriam
aparentar muita intimidade, mas deviam estar juntos há três
dias, não era possível que ele nunca tivesse falado nada
sobre a namorada. Isso era traição.
Nessa mesma noite voltaram
a jantar juntas e, no dia seguinte, saíram atrasadas de casa.
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