| Conversa sem fim
Até onde a vista alcança,
parece que o maior prazer de se viver nestes tempos de internet são
mesmo os e-mails.
Tá certo que nada,
nunca, vai substituir o bom e velho pedaço de papel, a boa e velha
caneta esferográfica. Nestes sim, a marca de quem escreve fica para
o leitor interpretar, para toda uma família guardar e, talvez, para
um historiador inventariar muitos e muitos anos depois.
Mas como cartas, bilhetes
e recados já foram há muito substituídos pelos telefones
e suas eficientes secretárias eletrônicas (que mal passam
o recado e já esquecem de tudo), não me sinto assim tão
culpada por amar de paixão um bom e-mail. Não aqueles que
trazem imagens pesadas em apelo e em kbytes. Não aquelas montagenzinhas
piegas que alguém se deu ao trabalho de fazer num Power Point, e
que a gente leva horas pra descobrir onde desliga. Mas sim aqueles em que
as pessoas trocam informações, fazem piadas inteligentes
ou simplesmente jogam conversa fora. (Aliás, eu nunca ví
conversa mais bem aproveitada do que aquela que se joga fora!)
O e-mail permite que a gente
se conheça ainda melhor, e que a conversa nunca tenha fim. Você
já pensou nisso? É óbvio que prefiro uma mesa de bar,
um banquinho de cozinha, uma sala confortável. É óbvio
que prefiro estar em qualquer lugar onde os amigos estejam, pra passar
horas e horas matracando. Só que o tempo sempre limita os encontros.
Além do que, o próprio tempo é limitado.
Como, então, duas
ou três ou vinte pessoas ocupadas podem conversar sem parar? Por
incrível que pareça, a única resposta que me ocorre
é o e-mail. Em primeiro lugar, não é necessário
sincronizar relógios pra mandar e receber e-mails. E também
ninguém precisa tomar banho, passar perfume, pentear o cabelo e
nem botar uma roupinha apresentável. Em segundo lugar, você
nunca corre o risco de ser inconveniente ou de "interromper alguma coisa".
E, por fim, como o seu interlocutor só irá abrir a mensagem
quando quiser, a atenção dele sempre estará todinha
voltada para você. Interessante, né? Com o e-mail, a gente
ainda economiza impulsos telefônicos.
Lembra daquela crise de verborragia
que você teve às oito e vinte da noite? Custou uma fortuna!
Se ela tivesse te pegado depois da meia-noite, teria saído bem mais
em conta... mas, além de uma crise nunca ficar esperando pela hora
da tarifa promocional, quem é que você teria coragem de torturar
ao telefone depois da meia-noite, heim? Tá vendo? Da próxima
vez escreva tudo no Word, dê um "control C", conecte, abra sua página,
dê um "control V", envie e desconecte. Não vai levar mais
do que três minutos, e você ainda checa a sua caixa de entrada.
Telefonemas, só mesmo
para ouvir a voz e para assuntos muito importantes, que demandam resposta
imediata. Por exemplo: "Tô indo pro boteco. Quer que eu passe na
sua casa?". Mas, também, quem faz um convite desses por e-mail só
pode ser alguém muito, muito chato mesmo.
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