| Autoflagelação
De repente prestei atenção
no espelho e tomei um susto: estava com uma touca de borracha grudada na
cabeça, de onde pequenos chumaços de cabelo haviam sido puxados
com uma agulha de crochê.
O couro cabeludo ainda ardia
por causa da agulha que fora enfiada com força através das
centenas de buraquinhos quase invisíveis da touca. Mas o cabeleireiro,
implacável, já se aproximava sem dó, com uma tigelinha
na mão. Ele mexeu mais uma vez aquela pasta roxa e, com a ajuda
de um pincel largo, passou tudinho com cuidado na raiz dos meus chumaços.
Mas só na raiz. Pra preservar as pontas e congelar apenas o cérebro.
Não, você não
pode imaginar o que é isso se nunca viu com seus próprios
olhos. E, no dia em que vir, vai começar a entender porque em salão
de beleza qualquer coisa é melhor do que olhar para o espelho. Vale
ler revista velha, bula de remédio e até falar mal da vizinha
ou da melhor amiga. E pode observar: a intensidade da fofoca é sempre
proporcional ao sofrimento da fofoqueira.
Eu, pelo menos por enquanto,
sou uma masoquista light. E ainda conto com a grande sorte de não
ter muitos pêlos no corpo. Mas quando vejo uma mulher recostada numa
daquelas cadeiras de lavatório, com um profissional do sadismo debruçado
sobre ela, arrancando os fios da sobrancelha um por um, entendo o que ela
está passando. E perdôo a fofoca maldosa. A não ser
que seja a meu respeito, é claro.
E ainda existem procedimentos
que ninguém faz em público, que é pra não assustar
criança e nem espantar clientela. Como grudar pedaços de
papel celofane untados com uma pasta de cor duvidosa pelas pernas e virilhas,
e depois arrancar numa puxada só. Saem os pêlos, sai a pele,
sai sangue, saem gritinhos, saem urros de dor e sai ainda, intercalada
com tudo isso, a fofoca mais escabrosa que já se ouviu nos últimos
tempos. E também não é pra menos.
Pensa que pára por
aí? Engano seu, porque o flagelo se estende por uma enorme cadeia
sub-humana que passa ainda por academias de ginástica, salas de
esteticistas, consultórios médicos, centros cirúrgicos
e camas de hospital. De onde hordas de mulheres saem todas felizes, com
quilos de gordura a menos ou litros de silicone a mais.
E, provavelmente, só
para humilhar as outras. Porque, pelo menos até onde a minha vista
alcança, a não ser que você pinte o cabelo de verde-bandeira
ou vista um modelito que mais se pareça (para o bem ou para o mal)
com uma fantasia de destaque de escola de samba, homem nenhum vai notar.
Acredite.
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