| São Tomé
das Letras
E aí eu entrei na
minha livraria preferida e estava tudo diferente. Mais parecia um supermercado.
Um supermercado onde a cultura fica toda organizada por assuntos, na ordem
alfabética do sobrenome do autor.
Então tá bom.
Desde que alguém saiba me dizer em qual assunto enquadraram "O Martelo
das Feiticeiras". História? Sociologia? Religião?
Olhei em volta procurando
o livreiro, e descobri que ele foi transformado numa caixa forrada de madeira
que se chama "terminal". Ao que parece, a profissão de livreiro
é que entrou em estado terminal: até se deixou trocar por
uma caixa que, de tão burra, só conseguiu me responder: "Um
de nossos atendentes terá o maior prazer em informar sobre a disponibilidade
da obra."
Muito bem. Foi assim que
descobri o que é um "atendente". Atendente é um balconista
de loja que não tem balcão. Um vendedor daqueles que poderiam
vender qualquer coisa. Cueca, pastel, relógio de pulso. Mas apenas
se o interessado souber exatamente onde a coisa está. Porque se
não souber, o atendente simplesmente se esconderá atrás
de uma expressão de desprezo absoluto e, de alguma forma, fará
você pensar que está ficando louco.
Mas, enfim, segui as instruções.
O primeiro atendente da minha vida coçou a cabeça, olhou
para os lados e, quando comecei a achar que seria mandada para uma loja
de ferramentas, ele simplesmente disparou: "Já consultou o terminal?"
Sim, já consultei
e ele me mandou falar com você. Mas o sujeito era determinado. Caminhou
na direção da caixa, perguntou de novo o nome do livro, catou
milho até conseguir digitar tudinho e, é claro, lá
veio a mensagem de novo. O rapaz não perdeu o rebolado. Do alto
daquele olharzinho malicioso, me passou a informação mais
lógica, conhecida e banal de toda a face da Terra: "Ah! Quando o
terminal diz isso é que não tem." E foi se afastando com
um sorriso pregado nos lábios. E, segundo a caixa, sentindo o maior
prazer em me informar que "não tem".
Não é preciso
dizer que mudei de livraria. Mas só até o dia em que ela
também mudou. E a outra. E a outra. E a outra.
Bem, eu não estou
aqui pra contestar a evolução e nem a ordem alfabética
natural do sobrenome de autor nenhum. Só tenho a dizer que como
isso é coisa de livreiro, e livreiro é coisa do passado,
estamos correndo o sério risco de, em pouco tempo, ter que procurar
"Operação Cavalo de Tróia" em medicina veterinária,
"Casa Grande e Senzala" em arquitetura, "Noites Antigas" no asilo e um
atendimento decente em pura ficção.
E, já que até
o charme se perdeu, eu me contento em lutar pra não perder o entusiasmo
e manter pelo menos um pouquinho daquele velho prazer. Por isso, desde
que tudo aconteceu tenho rezado regularmante para o santo que me pareceu
mais adequado ao assunto. Tenho rezado pra São Tomé das Letras.
(Ou será que até o santo evoluiu, e agora só atende
na seção de geografia e turismo?)
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