| Solteirice crônica
Enquanto eu era criança,
adolescente, jovenzinha, muitas coisas mágicas aconteciam na minha
casa e na minha vida. Comida brotava na geladeira, nas panelas e nos armários.
Produtos de limpeza nunca terminavam. Envelopes com um pouquinho de dinheiro
vira e mexe apareciam na minha mão. Mas, em contrapartida, eu não
tinha um pinguinho sequer de privacidade.
Com o tempo, fui perdendo
a maior parte dessa magia. Mas fui conquistando outros tipos de vantagem.
É bem verdade que
a roupa usada que coloco no cesto ainda aparece limpa e passada sobre a
cama, uns dois ou três dias depois. Que a poeira e a louça
suja desaparecem do dia para a noite. Mas fora esse rastro maravilhoso
e (quase) inofensivo da minha fada madrinha, o que encontro à noite,
quando abro a porta da sala, é exatamente o mesmo silêncio
e o mesmo escurinho que deixei pra trás de manhã.
Nada mais acontece se eu
não fizer ou não quiser. E nada, a não ser o meu telefone
ou a minha vontade, vai poder mudar o que eu quero ou não quero
fazer. É exatamente neste ponto que reside o enorme prazer de morar
só.
A cozinha pode estar fria.
Posso até precisar tomar banho com shampoo. Mas quem escolhe o CD
e o volume do CD player sou eu. E também posso largar a toalha molhada
onde bem entender. E deixar as calcinhas penduradas no box. E dormir com
a televisão ligada. E um mundo de outras coisas que me irritariam
muito se não partissem de mim.
Parece cinismo? Parece egoísmo?
Deve ser mesmo um dos dois. Ou ou dois. Mas ninguém pode negar que
isso tudo é muito bom.
Você pode até
adorar seu casamento. Você pode até não saber viver
só. Mas confessa aí o seu sonho de consumo: é o controle
do controle remoto ou é aquela viagem de três dias que o outro
vai ter que fazer? Heim? Heim?
E chega uma hora em que o
solteirão convicto começa a achar que dividir o mesmo quarto
e usar o mesmo banheiro é pura promiscuidade. Também, não
é pra menos. Você lá, babando no travesseiro, roncando
e assoviando, resmungando durante o sonho, levantando com a cara amassada
ou coisa bem pior, e o ser amado lá, também. Do seu ladinho.
Tendo que assistir, ouvir e sentir tudinho de camarote. Pelamordedêus!
É preciso ter muito poder de abstração pra manter
o romantismo. Sem falar no tesão.
Tudo bem, você pode
ser uma pessoa poderosa em termos de abstração. Mas será
que alguém consegue abstrair alguma coisa quando está plantado
no seu vaso, distraído, relaxado, bem no meio de uma reportagem
interessante, e alguém começa a bater na porta dizendo que
precisa entrar? E rápido?
É… como já
dizia a minha avó, é preciso casar cedo pra aprender a dividir.
Não sei se isso é genético mas concordo. Tanto que
não quero dividir mais nada: daqui pra frente, meu negócio
é somar.
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