| Adulto sofre
Vou andar, vou comer, vou
beber, vou brincar, vou nadar, vou dormir, vou ir. E vai explicar, prum
bichinho que está aprendendo a falar agora, que não é
bem assim. E vai explicar pra esse mesmo bichinho que, em bom português,
ninguém sobe pra cima e nem desce pra baixo. Embora seja exatamente
isso o que a gente faz.
Sou a mais velha entre três
irmãos e onze primos. Quando a maior parte deles nasceu, eu já
tinha aprendido muita gramática na vida (é claro que depois
desaprendi).Por essas e por outras, já passei poucas e boas com
a lógica infantil.
Agora tá na vez dos
sobrinhos. Sou a feliz proprietária de três. Um que já
está falando grosso e me chama pelo nome, outra que arrisca um agudíssimo
tití e o pequenininho de tudo, que por enquanto só olha.
Só olha rindo muito, mas sem entender nada. Ou, quem sabe, se fazendo
de desentendido (que se eu conheço essa família, é
bem capaz).
E já falta bem pouco
pra começar tudo outra vez. "Tití, a gente vâmo í?"
"Não, querida: a gente vai." "Se a gente vai, por que que você
falou não quelida?" E vai explicar pra esse bichinho que a gente
não vamos, mesmo que a gente vá, e sempre vá em mais
de um…
Ou então: "Tití,
é eu." "Não é eu, menina: sou eu." "Num tô falando
de você, tití: é de eu." "Querida, quando você
falar de você, tem que dizer estou falando de mim." E como elaainda
não sabe ler o diálogo, e mesmo que soubesse não entenderia
o sentido do texto em itálico, continua: "Cê num intendeu,
tití. Você tá falando de você, eu tô falando
de eu." E vai explicar pra esse bichinho quem é que tá falando
de quem…
Lógica infantil é
tão lógica que chega a ser absurda. Primeiro porque a gente
tem que reconhecer que é lógica. Depois, porque o lado infantil
da questão ainda não está preparado (nem física
e nem emocionalmente) para ouvir e entender palavrões como conjugação
verbal, locução adverbial, pleonasmo e todos aqueles outros
mais.
"Tití, nós
num vai?" "Não, querida, nós vamos." "Mas outro dia você
falou que a gente não vamos e a gente foi." "É verdade, querida:
a gente sempre vai." "Intão por que você falou não
quelida?" "Presta atenção: a gente vai, nós vamos."
"Ôba! A gente vamos duas vezes?" "Não, a gente vai uma vez
só. Repete o que a titia falou: a gente vai, nós vamos."
"Por que?" "Porque senão o Papai Noel não vai trazer aquele
brinquedinho que você quer, lembra?"
É, eu sei que isso
é muito feio. Mas existem momentos na vida de um adulto em que não
tem outra saída a não ser apelar.
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