| Me poupe
Pois é. E eu, que
adoro ligar um chuveiro quentinho e ficar relaxando lá embaixo,
fico pensando: o que será que os especialistas em energia andaram
fazendo nos últimos anos, que nos deixaram chegar a essa situação?
É um tal de diz-que-diz-que,
faz-que-faz-que e empurra-empurra que não resolve nada, e a gente
- que sempre paga os impostos e as contas de luz e de água direitinho
- é que fica com a responsabilidade de racionar. Oras, bolas! Será
que não tem alguma coisa errada, não?
E na explicação
dos especialistas, o principal acusado é São Pedro, coitado.
Aquele, que já tá com mais de dois mil anos. Pois será
que não foi exatamente pra dar uma folga pro santo que Deus inventou
os especialistas em energia? E delegou a eles a importante missão
de prever e de preparar o sistema para o aumento de consumo, para a falta
de chuva e para os dois ao mesmo tempo? Você não sabia? Pois
pode conferir na edição revisada e ampliada dos mandamentos.
Tá lá: é o 11º.
Eu vivo de propaganda. Se
um dia desses a minha capacidade de produção começar
a cair, será que o meu chefe vai poder impor racionamento aos clientes?
Mesmo que seja por causa de um fenômeno natural?
"Olha, pessoal, a redatora
está em crise de TPM por tempo indeterminado, e vocês vão
ter que se virar com uma pecinha só por mês, tá? Pode
escolher anúncio ou outdoor. Nada de comercial de TV, que consome
muito a energia da moça. Mas fiquem tranqüilos que não
vamos multar ninguém. Só vamos dar descontos especiais pra
quem pedir menos trabalho."
Já posso ver os clientes
concordando com um largo sorriso. E um minuto depois o meu chefe perdendo
a conta. E no instante seguinte eu perdendo o meu emprego. Tô errada?
Pois é. E aí
eu, que não entendo nadica de energia, fico imaginando: se eu desligar
o microondas e usar só o fogão a gás, vou economizar
energia elétrica, certo? E como todo mundo vai fazer a mesma coisa,
vamos acabar gerando um aumento na demanda de gás de cozinha, certo?
Agora acompanhe o meu raciocínio simplista: pra produzir todo esse
gás e fazê-lo chegar às nossas cozinhas, muitas empresas
vão aumentar o consumo de energia elétrica, não vão?
Esse é o ponto. Será
que tem algum especialista capacitado pra calcular se vale a pena? Parece
que não, porque se tivesse a gente não teria chegado a uma
situação dessas. Ou teria?
E o exemplo do gás
é só uma das possibilidades. Imagine todas as outras. E todas
as outras somadas.
Daqui a pouco água
quente vai virar artigo de luxo. Artigo de luxo perecível e em franco
processo de inflação. E o pior é que nem dá
pra estocar, senão esfria.
Parece que já estou
ouvindo aqueles alto-falantes dos vendedores de rua: "Olhaí olhaí,
freguesia! Água quentinha! Quinze litros ali pro cavalheiro, cinco
litros pra mocinha. Tem vasilhame ou leva no nosso?" E aí eu saio
na janela e ele olha pra minha cara: "Vai um banho hoje, senhora?"
E eu, sem emprego por causa
da TPM, sou obrigada a declinar: "Não obrigada. Hoje eu só
vou lavar os pés."
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