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Sem advogada não se faz justiça

Estava eu no táxi, a caminho do escritório, quando vi o adesivo no carro da frente. Num primeiro momento, achei que meus olhos tinham me enganado. Mas fui conferir e era isso mesmo: sem advogada não se faz justiça. 

Com todo o respeito que devo às advogadas e ao movimento feminista, será que não tem uma letrinha errada nesta frase? E será que esta simples letrinha não esbarra naquela parte da Lei que proíbe a distinção por sexo, raça ou religião? 

E, ainda respeitando todo mundo, será que depois que as advogadas se multiplicaram, os advogados deixaram de fazer justiça? Ou que o plural, neste caso, deixou de se fazer pelo masculino? 

Eu também sou mulher. E também sou uma profissional eficiente e aplicada. E também sou muito orgulhosa de tudo o que as mulheres conquistaram e vêm conquistando. E também trabalho muito por isso. Mas será mesmo que a maneira mais simpática de atrair o mercado para a nossa causa é dizer que sem médicas não se recupera a saúde, sem professoras não se educa ninguém ou que sem publicitárias não se fazem vendas? Duvideodó. 

E ainda acho que a causa feminina é muito maior que uma simples letrinha: acho que a nossa causa é disputar e ganhar posições no mercado unicamente pelas qualidades profissionais. E acho, ainda, que enquanto a gente insistir na letrinha, vai estar dando abertura para os concorrentes dizerem que isso é birra de mulher. E quem quer saber de profissional birrento, seja lá de que sexo for? E vai me dizer que você nunca ouviu isso antes! 

Se no carro da advogada tiver um adesivo dizendo que sem advogado não se faz justiça, ninguém vai questionar. Ninguém vai achar que ela está dirigindo o carro do pai, do irmão ou do marido. Mas não é porque alguém lê num adesivo que sem advogada não se faz justiça, que vai colocar em dúvida a competência do seu próprio advogado. E nem a de tantos outros, só porque eles nasceram homens. 

Tá certo. Neste assunto a língua portuguesa foi muito mais generosa com o jornalismo. Sem jornalista não se faz notícia vale pra todo mundo e não fere o ouvido de ninguém. Mas o que seria do mundo se as mulheres resolvessem contestar o uso da palavra "homem" como genérico da raça humana? 

Tudo bem. Já que o genérico masculino está fora de questão, não seria muito mais elegante colocar "sem advocacia não se faz justiça" no tal do adesivo? Pelo menos está no feminino e ninguém pode dizer que não seja politicamente correto. 

Pensem nisso, amigas advogadas e companheiras de lutas. Afinal das contas, no mundo dos negócios vale muito mais um mau acordo do que uma boa briga.
 
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