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De bem com o apagão

Antes de mais nada, quero pedir licença ao Ricardo Freire e substituir "apagão" por "desligão". Afinal, como ele disse em sua coluna de 14/5 no JT , quando o "apagão" acontece de propósito só pode ser "desligão". Concordo e adoto desde já. 

Mas, voltando ao meu próprio texto, confesso que decidi ficar de bem com o desligão. E a razão é muito simples: se eu continuar irritada, vou consumir muito mais da minha própria energia. 

Como a melhor maneira que existe de ficar de bem com alguma coisa é pensar no lado bom, comecei a fazer um balanço pra ver se existia algum. Surpresa: num instantinho só, encontrei uma porção. 

Pra início de conversa, em algum momento o desligão vai nos obrigar a subir escadas. E como os telefones sem fio também não vão funcionar, em hora de desligão fica instituída a volta do "correr pra atender". Em resumo: menos gordura e mais preparo físico pra todo mundo. 

Em segundo lugar, as pessoas vão ter muito mais tempo pra conversar. Já pensou? A família toda reunida e sem televisão? Uma maravilha. Ou um arranca-rabo. Mas aí, cada um que controle a sua própria família. 

E quem não quiser participar da conversa ou do arranca-rabo vai ter que dormir mais cedo. E conviver definitivamente com o fato de se livrar do stress. Ou, então, acender uma lamparina e simplesmente ler. De repente, brotaram do nada horas e horas pra ler. E não só à noite como também de dia. Afinal, o que é que você vai ficar fazendo no escritório escuro, sem telefone e sem computador, heim? Cometendo assédio sexual? 

Aliás, quando os desligões estiverem programados para o seu horário de trabalho, você pode aproveitar para marcar aquelas reuniões chatas, improdutivas e - sabe-se lá por que - indispensáveis. Como no escuro um não vê a cara do outro, todo mundo pode cochilar à vontade. 

Outras alternativas para não cair em tentação no trabalho: conversar com os colegas sem usar e-mail ou circular. Já pensou? Você finalmente vai ouvir a voz deles ao vivo, sem um fio de telefone no meio. Vale contar piada, ouvir mentiras de pescador, jogar batalha naval, falar mal de quem foi para aquela reunião chata, fazer fofoca. Só não vale tomar café, que a essas alturas já esfriou. E por falar em esfriar, eu tava quase esquecendo do principal: o ar-condicionado será desligado incondicionalmente. Sem chance de apelação. Não é o máximo? 

E as crianças, então? Finalmente você vai conseguir desgrudá-las da tela da televisão, da internet ou do videogame. E vê-las descobrir o esconde-esconde, o pega-pega, a queimada, a cabaninha no quintal e, com um pouco de sorte, os livros. Fala a verdade: você vem tentando isso há anos, né? 

E namorar no escurinho, então? E jantar à luz de velas? E ouvir o silêncio? Imagine só que benção: na hora do desligão, até mesmo aquele seu vizinho adolescente vai ficar quieto. Não vai ter rock pauleira - ou música sertaneja, ou pagode, ou funk, ou seja lá o que for - no último volume. 

Tudo isso sem falar que as noites da cidade vão ficar muito mais bonitas e românticas, quando enfim forem poupadas daquela overdose de antenas, painéis luminosos, cartazes iluminados e sabe-se lá o que mais. 

Mas o lado bom ainda não acabou: lembra do fogão a lenha? Aquele do feijão gostoso, que muitas vezes tinha uma serpentina pra esquentar a água da caixa? E lembra do forno a lenha, que faz pizzas e assados imbatíveis? E da lareira? E dos aquecedores de ferro batido? Pois tudo isso - que primeiro virou velharia e depois se transformou em artigo de luxo - é muito mais barato que um gerador, não nos obriga a estocar inflamáveis em casa e ainda pode nos ajudar a fazer a nossa parte na economia com muito mais elegância e charme. Não acha? 

Tá vendo só? Parece até que vai ser bom. Mas não conte pra ninguém, senão "eles" percebem e babáu: 24 horas de energia elétrica por dia, nunca mais. Só que isso já é uma outra história e fica para uma outra vez.
 
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