| Filosofando em português
Um monte de gente discute
a língua escrita e a língua falada. A linguagem culta e a
coloquial, as diferenças e as semelhanças, o que vale pra
uma mas não vale pra outra, o que vale sempre e o que não
vale de jeito nenhum. Mas, pelo menos até onde o meu ouvido alcança,
pouca, pouquíssima gente discute em público a "língua
pensada", ou seja: o simples hábito de "pensar a língua"
ao invés de só decorar as regras e ir falando sem pensar.
Não que eu seja contra
as regras. Longe de mim. Mas será que se as pessoas aprendessem
a "pensar a língua" não acertariam com muito mais facilidade?
Veja, como exemplo, o caso
do pobre "de que". Quem não pensa antes de usar provavelmente usa
errado. E quando fica sabendo que errou, simplesmente elimina o "de que".
E passa a "ter certeza que", sem pensar que quem tem certeza sempre tem
certeza "de" alguma coisa.
E tem caso parecido pra mais
de metro. Ou melhor, pra mais de lauda. Como aquela história de
"ir ao encontro" ou "ir de encontro". É só usar a língua
pensada pra perceber que um é exatamente o contrário do outro.
E decidir, só então, qual dos dois quer usar.
Mas a coisa não se
limita à gramática, não. Na verdade, todos os dias
surgem expressões as mais exóticas só porque alguém
falou sem pensar. E um monte de gente as inclui no seu vocabulário
só porque ouviu e, provavelmente, achou "de que" era bonito.
Geralmente essas expressões
são frutos da rica imaginação de alguém que
deseja transmitir um sentimento muito, mas muito intenso. E de tanto enfeitar,
acaba furando um olho, como já dizia a minha avó. Não
apenas por dar vários sentidos às palavras, mas também
por contribuir com o crescimento do curioso estilo rococó verbal,
que é um jeito barroco-moderno de falar, e que pode inspirar irritação
ou gargalhadas em quem pensa a língua e está ali só
pra ouvir (a opção, como sempre, depende do seu estado de
espírito no dia).
Um dos exemplos clássicos
é o tal do "beijo no coração", que eu já malhei
o suficiente na crônica que
tem o mesmo nome. Mas, vira e mexe, ouço outros. Às vezes
novos, às vezes tirados de algum baú, como aquele que encontrei
outro dia, em pleno horário nobre.
Naquele domingo (essas coisas
sempre me acontecem aos domingos), eu achava que já tinha zapeado
por todas as excentricidades disponíveis em canal aberto quando,
de repente, meus tímpanos foram atingidos em cheio por alguém
que elogiava alguém num programa popular. Não vou revelar
a fonte, que isso é coisa muito feia. Mas, no auge da babação
de ovo, apareceu um entusiasmado "… e o que eu mais admiro em você
é que, apesar de todo o seu sucesso, você continua sendo uma
mulher humana."
Enquanto pessoa humana, eu
fiquei emocionada diante de uma das bobagens-símbolo do papo-cabeça
(a outra era alguma coisa como "consciente e pleno do seu próprio
ser", lembra?). Mas logo caí na gargalhada só de imaginar
humanos de muito sucesso virando klingons, betazóides, romulanos,
ferenguis, talarianos ou seres de qualquer outra espécie humanóide
que apareça em Jornada nas Estrelas. Têm tipos pra combinar
com todos os tipos.
Mas os barrocos-modernos
precisavam, mesmo, passar pelo menos uma temporadazinha como vulcanos.
Assim, eles iriam ficar tão lógicos e tão racionais,
que nunca mais falariam nenhuma esquisitice sem pensar. Pelo menos um pouquinho.
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