| Criança sofre
Estou seriamente desconfiada
de uma coisa: de que gente grande sempre passa por um gravíssimo
processo de amnésia. Uma espécie de amnésia progressiva
e profunda, que nos faz esquecer detalhes muito importantes na medida em
que vamos crescendo. De como eram chatos os programas de gente grande,
por exemplo.
Quem é que pode se
divertir numa festa, quando só tem altura pra ver os outros convidados
até a cintura? Isso sem falar em outras maluquices: "Olha a tia
Dora! Dá um beijinho nela, dá!". E, quando a gente se recusava
porque nunca tinha visto a tal da tia na vida, nem com menos pancake na
cara, tinha início uma luta. E no meio dessa luta, sempre aparecia
uma senhora muito enfeitada e muito perfumada que dizia: "Ela está
estranhando o ambiente, coitadinha… criança é assim mesmo!
Deixa ela sossegada um pouquinho, que já já ela vai estar
cheia de beijinhos pra dar, não é minha princesa?". Grumpf.
E aí alguém
se aproximava e dizia pro seu pai: "Esta é a sua mais velha?" (ou
do meio, ou caçula ou assim por diante) E, fazendo bilú-bilú
com os dedos bem pertinho do seu rosto, completava: "Nossa! Como você
cresceu!" (ou está bonita, ou ficou a cara da vovó ou assim
por diante). Grumpf, grumpf.
Não é à
toa que, quando a gente encontrava alguém do nosso tamanho, não
conseguia pensar em outra coisa a não ser se juntar pra fugir. Mas
era só sair correndo pra todo mundo olhar feio. Aí o parente
que estivesse mais perto nos encostava na parede e perguntava se a gente
tinha deixado a educação em casa. Depois dessa, só
restava mesmo atacar os docinhos. E quando eles caíam no chão,
assim sem querer, a gente ainda podia pisar para afundá-los no tapete.
Quer dizer, poder não podia, porque quando algum adulto olhava para
o chão, a gente levava a maior bronca.
Mas talvez a pior bronca
fosse a do supermercado. Primeiro nos arrastavam para um lugar enorme,
cheinho de coisas legais e gostosas, e depois ficavam bravos se a gente
saísse de perto ou começasse a escolher as nossas próprias
compras. Aí a gente teimava, aí a voz deles se alterava,
aí a gente ameaçava gritar ou se jogar no chão e aí
levava um sopapo. Situação humilhante pra quem, há
poucos minutos, estava brincando no quintal sem nem sequer pensar em fazer
compras.
E quando a gente já
estava com uns 3 ou 4 anos e algum adulto nos dava a mão e nos levava
pra passear? Era uma delícia! A não ser, é claro,
que o adulto em questão não tivesse a menor idéia
de que, embora a gente já andasse muito bem, ainda tinha braços
e pernas muito mais curtos que os dele. Então ele passeava e a gente
ia correndo atrás. E se cansava depois de uma quadra. E o adulto
lá, tentando nos convencer de que passear é legal. E a gente
lá, empacada, dizendo que não é, não. E o impasse
durava até a gente começar a chorar, que era quando o adulto
finalmente nos pegava no colo e voltava. E nos devolvia pra mamãe
suando e arfando, porque criança de 3 ou 4 anos já é
bem pesadinha.
E ainda era a gente que
levava fama de enjoada!
Não sei bem por que
acordei pensando nisso, hoje. Talvez seja porque não cresci o bastante,
ou talvez porque o meu processo de amnésia progressiva e profunda
esteja falhando. De qualquer forma, as lembranças vieram em boa
hora. Na verdade, bem a tempo de eu me redimir da irritação
que senti ontem, num saguão de exposição de arte antiga.
O que eu ví, ontem,
foram crianças birrentas que insistiam em fugir dos pais para correr
no saguão. E pais que corriam atrás de crianças. Aí
as crianças teimavam. Aí a voz dos pais se alterava. Aí
as crianças ameaçavam gritar ou se jogar no chão.
Aí os pais ameaçavam dar um sopapo. Tudo isso num espaço
fechado e muito cheio de gente, em que só havia iluminação
sobre as antigüidades expostas.
O que vejo hoje, depois que
a memória da infância voltou, é que embora os adultos
estivessem cheios de boas intenções e querendo dar bons exemplos,
não conseguiam se lembrar do mais importante de tudo: de como é
que as pessoas, por mais inteligentes e educadas que sejam, vêem
e sentem o mundo quando ainda são crianças.
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