| O microtauro
Na primeira vez que ouvi
falar em ressetar a pram eu confesso que me senti ofendida. Sempre havia
resolvido os impasses do meu micro pelo método arborígene,
e me recusava a ouvir e a compreender determinados palavrões.
O bicho travava, eu tirava
o plug da parede e colocava de novo. Simples assim. Até que ele
começou a achar que eu poderia ir mais longe - ou talvez que as
coisas estivessem ficando fáceis demais pro meu lado - e decidiu
passar para a próxima lição. E a inocente aqui comprou
a briga e aprendeu a resolver conflitos de extensões, a buscar informações
perdidas em arquivos nunca dantes navegados, a alocar mais memória
pra cá e pra lá, a dar primeiros socorros em geral e a perder
noites de sono pra recuperar horas de trabalho. Até porque, cá
entre nós, eu não conseguia nem pensar em entregar o jogo
pruma simples maquininha.
Foram várias lições
até chegar na danada da pram, que até hoje eu só sei
ressetar, mas não sei nem o que quer dizer. Aliás, nem sequer
vou aprender. Porque depois dessa ele vai querer me aplicar mais alguma.
Naturalmente mais complicada ainda.
E não adianta vir
com essa história de amadurecimento pessoal, porque esse sujeitinho
através do qual vos falo tem personalidade própria, mesmo.
E é um tremendo insensível, apesar da aparência sofisticada
e dessa expressão alegre de eletrodoméstico quando abana
o rabinho. E, além de tudo, está mal acostumado. Como eu
nunca soube impor limites, hoje, quanto mais a gente dá, mais o
bichinho quer.
Bem, eu não pretendo
semear a discórdia na sua mesa de trabalho e nem colocar minhocas
na sua cabeça… mas você já olhou bem para a cara do
seu micro? E ele não te lembra nada, não? Então vamos
tentar juntos: ele fala grego, quanto mais você tenta conhecer, mais
você se perde, e ainda por cima tem um monstro escondido lá
dentro. Que, aliás, sempre dá um jeito de engolir as suas
pastas mais importantes sem dó, sem piedade e sem qualquer explicação.
E agora? Caiu a ficha?
Pois é, meus amigos,
depois de anos e anos de completa insanidade, finalmente estou convencida
de que o micro é uma entidade muito séria. Talvez ainda mais
perigosa do que aquelas que apareciam quando a gente fazia a brincadeira
do copo. Porque, pelo menos, na tal da brincadeira não tinha dinheiro
envolvido. E o máximo que a gente conseguia quebrar era um copo.
Por isso, se você não
quiser ir à loucura, ouça a voz da experiência e não
se meta muito com ele. É só se fazer de besta. Ou simplesmente
relaxar e começar a acreditar em dogmas. Como, por exemplo, "isso
acontece… são coisas de computador".
Afinal das contas, já
que a questão é ficar perdido, que seja na ilha de Creta.
Onde pelo menos tem mar, praia, sol e cerveja, e onde a gente é
capaz de se fazer entender. Nem que seja na base da mímica.
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