| Autoflagelação
4, o combate
Hoje eu comecei o meu dia
tentando abrir parênteses para arrumar o cabelo. Se não fizer
disso a primeira providência da manhã, depois não consigo
nem abrir aspas. Muitas vezes, nem um paragrafozinho só pra mudar
um pouco de assunto. Mas, como você bem reparou, eu disse "tentando".
Porque, no meio do caminho para o cabeleireiro, a minha coleira eletrônica
tocou e me trouxe de volta para o texto principal. Desta vez, urgências
no escritório.
Pra ser sincera, até
onde a minha vista profissional alcança, as tais urgências
nem eram tão urgentes assim. Mas o fato é que, de lá
até agora, as frases foram se emendando de tal maneira que não
sobrou espaço nem prum asteriscozinho.
Não sei se é
defeito de projeto ou de fabricação do ser humano em geral,
ou se atinge só os que têm o meu número de série…
mas você já notou como aquelas coisinhas tão simples,
que são tão importantes pra nós, sempre têm
que ser encaixadas na marra entre parênteses? O resto, tudo aquilo
que envolve o mundo inteiro (por menor importância que tenha), não.
Acho que
quando a gente nasceu, já
estava escrito que trabalho, família, casa, amigos, colegas, clientes,
fornecedores, conhecidos, desconhecidos, cães, gatos e automóveis,
entre muitas outras coisinhas, sempre teriam horário nobre reservado
no nosso dia, ainda que aparecessem do ralo. Assim, sem mais nem menos.
E aquelas sensações
básicas e tão gostosas, como a de um cabelo crescendo com
dignidade, um banho (bem) mais demorado e até mesmo a leitura daquele
livro que simplesmente pulou na sua mão durante a última
visita à Fnac ficam, invariavelmente, guardadinhas para depois.
Para a madrugada, por exemplo. Ou para algum espacinho que você eventualmente
conseguir.
Provavelmente naquele momento
maravilhoso do dia em que, finalmente, você abre os seus parênteses
desligando o celular.
Se é que você
consegue desligar o celular. E a internet. E o telefone. E, sobretudo,
os neurônios.
E aí você me
pergunta: toda essa revolta só por causa do cabelo? E aí
eu te respondo: o problema não é o cabelo. É que eu
nunca consigo pagar, sossegada, o meu tributo mensal à auto-flagelação.
E ponto final.
.... |