| Bravo!
Quando ouvi pela primeira
vez eu não tinha mais do que 16 anos, e estava num recital de piano
no Teatro Municipal de São Paulo.
Pois é. Se a maior
parte dos adolescentes aborrece a maior parte dos adultos com seu gosto
exacerbado por música popular de qualquer gênero ou padrão
de qualidade - desde que seja bem alta - sempre existe aquela minoria que
consegue aborrecer todo mundo com um jeitinho arrogante, metido a intelectual.
Eu, naturalmente, fazia parte do grupinho besta. E como a gente nunca pula
fases da vida, mas só as troca de lugar, hoje, enquanto a maior
parte das pessoas da minha idade vai ficando séria, meio posuda
e cada vez mais silenciosa, eu vou aumentando o som do rock. Uma vez chata,
chata para sempre.
Bem, mas estávamos
falando nos aplausos ao fim de um recital de piano. Como vocês sabem,
num recital ou concerto de música erudita as únicas manifestações
permitidas ao público são aplausos nos momentos certos e
gritos de "bravo!" no final. Além, naturalmente, das tosses, espirros,
roncos, chiados e daquele maldito barulhinho de papel de bombom, mas só
porque tudo isso é inevitável.
Naquele dia, o público
era só aplausos. Mas depois do bis, o povo decidiu aplaudir de pé.
E aí começaram a espocar gritos de "bravo" em diferentes
pontos da platéia. E eu achando aquilo lindo até que, de
repente, ouço um "bravo" que me incomodou: o tom era esganiçado,
esquisito, feio mesmo. Era um "bravo" gritado por mulher.
Na hora, achei que era aquela
mulher, em particular, que não tinha voz apropriada para gritar
num local de acústica tão caprichada. Mas vieram muitos e
muitos outros concertos e recitais, e concluí que voz de mulher
nenhuma serve pra isso. Por uma simples questão estética.
Voz de mulher em platéia de espetáculo só fica bem
pra gritar "lindoooooo", "gostosooooo". Ou simplesmente gritar. Por isso,
até hoje, quando ouço alguma gritando "bravo", quem fica
brava sou eu.
Se você é mulher
e se, como eu, adora se manifestar nos espetáculos, também
não precisa se limitar a essa coisa vulgar de lindo e gostoso. Basta
usar alguns truques bem simples. Assim, além de poupar todo mundo
daquele som horroroso de taquara rachada, você irá evitar
que todo o seu charme e elegância sejam arrastados para o ralo e
caiam na vala comum.
Você pode assoviar,
por exemplo. Se ainda não sabe, aprenda sem medo de ser feliz. E
não tenha a menor vergonha de meter os dois dedos na boca em plena
platéia, porque ninguém vai reparar, mesmo. A não
ser, é claro, que os únicos holofotes existentes no recinto
estejam voltados justamente para você. O assovio, por mais estridente
que seja, não pode classificar ninguém como gralha ou qualquer
outra ave menos exótica, e é um tipo de manifestação
bastante aceitável.
Você pode, ainda, gritar
"uhú". Existem infinitas variações de "uhú":
é só escolher a que mais combina com a sua personalidade
ou então criar a sua. Já pensou? Um "uhú totalmente
inédito, que talvez se mantenha exclusivo para sempre?
Mas lembre-se: nenhum destes
truques vale pra recital ou concerto de música erudita. Numa ocasião
dessas, por favor, limite-se a ouvir e bater palmas na hora certa. E, caso
venha a sentir uma vontade incontrolável de se manifestar através
de outro som, simplesmente tussa. Ou espirre. Ou chie. Ou ronque. Ou então
abra uma dúzia e meia de bombons.
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