| A reforma da natureza
A Emília bem que já
tentou, uma vez. E o Monteiro Lobato contou tudinho o que ela fez e que
acabou não dando certo.
Bem, talvez ela tenha sido
assim um tanto literal. E radical. Mas é preciso considerar que,
para uma boneca de pano que foi costurada no começo do século
passado, a Emília até que teve um raciocínio bem de
vanguarda.
Das reformas que eu mesma
sugeriria, muitas já foram antecipadas pelos japoneses. Pimentões
amarelos, mini-pepinos para conservas e melancias quadradas, por exemplo.
Outras, o mercado se encarregou
de providenciar: ervilhas sem vagens, milho sem espiga, batatas prontas
para fritar, verduras escolhidas e lavadas.
Só que ninguém
ainda inventou a laranja sem casca, o limão que não mancha
a pele e a goiaba sem bicho. Bom, pra falar a verdade eu nunca vou ter
certeza sobre essa história do bicho. Pelo menos enquanto continuar
insistindo em só comer goiaba no escuro.
De qualquer maneira, continuam
existindo outras reforminhas que eu gostaria de fazer. Por exemplo: deveria
ser proibido ventar quando estivesse frio. O frio, por si, já se
basta. Além do mais, aquele ventinho gelado batendo no rosto dia
após dia durante o inverno inteiro é pior que tortura chinesa.
Também acho que, todo
santo dia, deveria chover durante pelo menos uma horinha. A ser determinada
em pesquisa de mercado, pra interferir o mínimo possível
na atividade das pessoas. Com isso, ficariam totalmente vetados os chuviscos,
que não resolvem nada e melecam tudo, as tempestades, as enchentes
e as secas.
Acho, ainda, que o cabelo
deveria parar de crescer sempre que a gente gostasse do corte. E que deveria
crescer bem rapidinho quando a gente não gostasse ou já estivesse
ficando enjoado.
E acho, sobretudo, que dinheiro
deveria dar em árvores. Pra que a gente pudesse trabalhar só
por prazer e livre diletantismo, ou em sessões de terapia ocupacional.
Se você concorda comigo,
fica aí a idéia para uma grande mobilização
popular. Escreva agora mesmo para o seu congressista e solicite providências
urgentes junto aos governantes do universo. E depois não reclame
se elas vierem por medida provisória, ato institucional ou decreto-lei.
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