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Meu tipo inesquecível

Por muitos e muitos anos escrevi em New York. De repente alguma coisa começou a incomodar, e acabei mudando para Geneva. Às vezes acontece. A gente vai evoluindo com o tempo e, num belo dia, olha em volta e vê que elementos tão comuns da nossa rotina já não combinam com o nosso jeito de ser. 

Confesso que a mudança não foi fácil. Tive que ir procurando, estudando e testando. Neste processo, levei meses pra escolher Geneva. E, pelo menos por enquanto, estou muito feliz. 

Mas não vim pra falar disso. Vim para prestar uma homenagem ao meu tipo inesquecível. 

Na verdade, nunca passou pela minha cabeça estabelecer um tipo preferido. De alguns gosto mais, de outros gosto menos. Mas reconheço que todos têm a sua utilidade e o seu momento ideal. 

Os altos e magros geralmente são muito nobres e elegantes. Ficam especialmente bonitos numa festa, num bom restaurante, numa loja requintada. Já os baixinhos arredondados geralmente não têm muita graça. E além disso são tão comuns, que a gente acaba tropeçando neles em quase todo lugar. Os quadrados eu detesto: com aquela sua pretensa modernidade,têm o poder de envelhecer tudo o que está por perto. Já os de traços finos e aparência arrogante eu adoro. Especialmente quando fogem um pouquinho do convencional. 

Existem, ainda, os informais. Leves e ligeiros ou um tantinho mais fortes e rebuscados, eles podem ser surpreendentemente agradáveis, desde que em períodos muito curtos: se a gente esticar um pouquinho o assunto, eles acabam dificultado a vida de todo mundo. E, como não poderia deixar de ser, sempre existem aqueles que são enfeitados demais. Esses eu prefiro evitar, porque costumam ser inconvenientes em quase todas as ocasiões. 

Colocando as observações gerais de lado, centenas deles já me fizeram feliz. E muito mais que uma vez. Quanto aos outros, estou certa de que ainda vou ter coragem e oportunidade de experimentar. Mas o tipo que eu jamais vou esquecer em toda a vida foi o meu primeiro: um simples e cotidiano Times. 

Até hoje fico emocionada quando me lembro daquele pedaço de papel fotográfico, com meu texto composto em Times. 

Naquele tempo, os redatores escreviam à máquina ou à mão. Eu sempre escrevia à mão e depois datilografava. E como só tinha uns quinze dias na profissão, só tinha visto meus textos no único tipo possível, que era algo entre o American Type Writer e o Courrier. Um dia saí para o almoço e, quando voltei, encontrei sobre a mesa aquela folha de fotocomposição, pronta para revisar. 

Nunca demorei tanto para revisar alguma coisa. Não me lembro qual era o assunto, nem me lembro quem era o cliente. Só me lembro da emoção que senti ao tocar aquele pedaço de papel que trazia o meu texto composto em Times. 

Depois dele vieram muitos e muitos papéis fotográficos. Trazendo meus textos compostos em muitos e muitos outros tipos. E até em idiomas e alfabetos tão diferentes, que se eu não soubesse não seria capaz de reconhecer. E então veio o primeiro micro, trazendo a minha liberdade de escrever no tipo que eu bem quiser, independentemente do que o diretor de arte faça com ele depois. 

Mas nunca, nada, jamais se igualou àquele Times. Um Times que não me serve para o uso do dia-a-dia, porque não combina com a minha configuração pessoal. Mas que sempre irá representar o tipo de vida que eu escolhi, e os todos os tipos que pagam as minhas contas até hoje, vinte e tantos anos depois.
 
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