| Na caloria do assunto
Depois dos 40 anos gente
fica mais esperto. Acho que é pra compensar a celulite. Aliás,
eis aí um assunto polêmico, no qual eu me posiciono junto
a uma facção conservadora que acredita que, se você
não der bola pra ela, ninguém mais vai ter peito pra dar.
Em primeiro lugar, porque
a Lei da Gravidade é totalmente democrática, e faz questão
de atingir todo e qualquer ser humano, sem discriminação
de raça, credo ou padrão sócio-econômico. E
em segundo lugar porque você é uma pessoa inteligente, e nunca
vai permitir que a sua celulite ultrapasse os limites estabelecidos pelo
bom senso e pela boa educação.
Confesso que não gosto
muito da minha. Mas não é por isso que vou permitir que alguém
a trate mal. A minha celulite só recebe o que há de melhor.
Massagens, cremes, carinho e quilos de centella asiática.
Mas, voltando à vaca
fria, depois dos 40 a gente fica muito mais esperto, mesmo. Principalmente
na hora de driblar a dieta e arrumar bons motivos científicos, psicológicos
e até mesmo políticos para justificar aquele inexplicável
ataque à lasanha do domingo. E à churrascada do sábado.
E à bacalhoada da sexta. E à macarronada da quinta. E à
feijoada da quarta. E à dobradinha da terça. Mas nunca ao
virado paulista da segunda, porque ele vai à mesa exatamente na
hora em que a gente está começando a dieta.
Bem, mas já que depois
de terça-feira a gente se sente tão frágil e emocionalmente
abalado, fazer o quê a respeito do pudim de leite e daquela meia
garrafa de vinho a mais?
Pois é. Já
que depois de terça-feira o inevitável acontece, a única
coisa que me consola é que os resultados físicos sempre se
transformam em sabedoria a mais.
Um velho amigo me disse,
uma vez, que na verdade não sou gordinha: sou uma mulher clássica.
Adoro ter amigos assim. E adoro, especialmente, encontrá-los toda
semana em alguma mesa agradável da cidade. Pra alimentar a alma
e as boas relações sociais. Pra crescer interiormente na
caloria do assunto. E é só até aí que eu confesso.
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