| Fato verídico
Essa me aconteceu há
anos e nunca mais me saiu da cabeça.
Naquele dia, como sempre,
aproveitei a hora do almoço pra fazer umas comprinhas (sempre aproveito
a hora do almoço pra fazer qualquer outra coisa além de comer.
Aí, lá pelas duas horas, quando já estou roxinha de
fome, acabo devorando qualquer coisa gostosa em dobro, o que me faz lutar
contra a preguiça até umas cinco da tarde, que é a
hora do lanche. Mas é claro que, como (quase) todo mundo, eu também
tenho a minha gaveta dos pecados no escritório (e nem vem com essa
história de que não sabe o que é isso, porque eu aposto
que você também tem a sua, e que ela está sempre muito
bem abastecida com todos os tipos de biscoito doce e salgado, torrones,
chocolates e jujubas). Às vezes fazemos permuta de pecados, só
pra variar. Outras vezes produzimos verdadeiras surubas gastronômicas
vespertinas, que é quando todo mundo tira todos os pecados das gavetas
e os coloca em cima da mesa, pra cada um se servir do que quiser. Aliás,
será que existe momento de maior intimidade entre os colegas de
trabalho do que quando eles partilham seus pecados? Nesses momentos, todas
as intempéries desaparecem pra que a gente possa comungar dos sabores
mais deliciosos e das misturas mais originais. Como MM com sopa de mandioquinha
(sim, sopa de mandioquinha! Dessas que vêm em saquinhos e que a gente
prepara na caneca), rosquinhas de nata com chá de manga (não,
leite com manga não faz mal, não senhor), balinhas de limão
com trufas e outras que, ocasionalmente, nos custam uma certa indigestão.
Mas nada que um happy hour não possa curar fácil, fácil.
E por falar em happy hour, por que será que o evento tem este nome,
se sempre dura muito mais do que uma hour? Boa pergunta, porque eu duvideodó
que exista, no mundo, algum povo tão disciplinado que consiga ficar
só uma hourzinha no boteco e depois ir correndo pra casa, preparar
ou aquecer o jantar. Além do que, happy hour que deixa a gente com
a sensação de buraco no estômago não é
happy nem aqui e nem na China. Pra ser happy, happy mesmo, tem que ter
aquela tranqueirada toda de petisco e/ou culminar numa bela refeição.
Isso é que é felicidade: além de se divertir, a gente
mata a fome sem ter que ir pro fogão. O que, aliás, na hora
do almoço se resolve muitíssimo bem, pelo menos pra quem
não tem tempo de voltar pra casa só pra comer. Mas a hora
do almoço não tem diversão, porque é sempre
tão corrida…).
Mas, do que é que
eu estava falando? (Roseli pensa, pensa, pensa e finalmente confessa) Depois
de anos e anos de ininterrupta gozação, estou ficando igualzinha
a minha mãe. E não sei por que, mas estou com a sensação
de que já falei isso antes.
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