| Verifique o mesmo
Já estava atrasada
para a reunião com o cliente, e aqueles dezessete minutinhos que
a recepcionista gasta para copiar lentamente tudo o que vem escrito no
RG e depois fotografar a minha expressão meio aflita, meio descabelada
estavam me levando à loucura. Mas, enfim, recebi o crachá
e saí em disparada na direção do elevador.
Êta mania inútil
essa de sair em disparada na direção do elevador. Será
que em todos esses anos eu ainda não aprendi que elevador é
bicho voluntarioso, que só chega e só parte quando está
com vontade?
Mas, enfim, foi assim que
aconteceu. E foi esperando a vontade do bicho que fiquei ali parada, com
cara de elevador. E que reparei, pela primeira vez, naquela plaquinha intrigante
que hoje em dia vejo em tudo o que é lugar: "Senhores Passageiros,
antes de entrar no elevador verifiquem se o mesmo encontra-se parado neste
andar".
Pensei, considerei, questionei,
tentei interpretar. Mas confesso que não consegui, até hoje,
encontrar o sentido da frase. E isso por duas razões bastante simples.
Primeira: se eu verificar
que o mesmo não se encontra parado, poderia ele estar se movimentando
pelo andar? Segunda: se o elevador não estiver parado ali, bem na
minha frente, como é que eu vou conseguir entrar nele? Ou melhor,
como é que eu vou conseguir entrar "no mesmo"?
Tudo bem, pode acontecer
alguma pane que abra a porta indevidamente. Posso até atravessar
indevidamente a porta que se abriu por causa da pane. Mas daí a
entrar no elevador tem uma distância enorme. A distância da
profundidade de um fosso, talvez.
E se eu estiver lá
em cima, e se "o mesmo" estiver mais lá em cima ainda, é
certo que nunca mais eu vou conseguir entrar em elevador. Nem "no mesmo"
e nem em outro qualquer. O que tem seu lado bom, já que pelo menos
me desobrigaria para sempre de ler a tal da plaquinha. Aquela, que se estivesse
escrita em bom português - ou, no mínimo, em português
claro - não me distrairia com ataques de riso ou de mau humor, dependendo
do meu estado de espírito na ocasião.
Mas é preciso considerar
que existem outros perigos: se é desse jeito que as pessoas entendem
as placas, o que aconteceria se as placas estivessem escritas como se deve?
Já pensou?
"Senhor Passageiro: quando
a porta se abrir, certifique-se de que o elevador está parado lá
dentro." Aí os passageiros verificam, se entreolham, murmuram e
concordam entre si: sim, ele está. E então a porta fecha
e o bicho vai embora sem que ninguém se arrisque a entrar, já
que a plaquinha não traz ordem nenhumma nesse sentido. Será
que é possível?
Poderíamos, ainda,
tentar um "Senhores Passageiros: não dêem um passo no vazio,
a não ser por conta própria e auto-risco". Que tal? Se não
deu pra entender, pelo menos ficou mais criativo.
E existe, ainda, outro ponto
crucial na questão: será que as pessoas são capazes
de entender que estamos falando do elevador, se não usarmos a expressão
"o mesmo"? Ou será que a frase foi construída assim para
que ninguém o confunda com a escada?
Não tenho a menor
idéia. Mas, seja lá como for, duvido e faço pouco
que uma pessoa distraída a ponto de não ver um elevador inteiro
seja capaz de perceber a existência de uma simples placa, ainda que
ela tivesse sido escrita pelo Érico Veríssimo em pessoa.
É por essas e por outras que, sempre que dou de cara com uma delas,
acabo pensando muito em Jorge Amado.
Sobre elevadores e suas
plaquinhas, leia também Aviso
irrelevante, da Luciana Ribeiro.
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