| Decifra, se for capaz
De uns tempos pra cá,
eu tenho refletido bastante sobre o profundo desgaste a que certos enigmas
da humanidade me têm submetido no dia-a-dia.
Não, não estou
falando em enigmas consagrados como a origem do universo, a vida após
a morte, o desaparecimento dos dinossauros, os segredos de Machu Pichu,
a fórmula da Coca-cola. Na verdade, os motivos que me movem são
bem outros. São aqueles fenômenos que a gente testemunha todos
os dias, mas não consegue explicar nem com toda a ajuda da ciência,
da filosofia e da religião. Para falar português claro, são
mistérios que a gente não consegue desvendar nem com reza
brava.
Será, por exemplo,
que alguém tem uma explicação razoável para
o caso dos semáforos que fecham sempre que a gente está com
pressa? Ou saberia dizer por que a novela das oito sempre começa
às nove? Ou poderia justificar a existência de bolsos nos
pijamas? É claro que não, mas isso não faz muita diferença.
A gente começa a enlouquecer de verdade quando resolve encontrar
alguma lógica na estratégia de empresas que, embora afirmem
que nos prezam muito como clientes, insistem em nos telefonar nas horas
mais impróprias, só para relacionar uns dez motivos imbecis
pelos quais a gente precisa comprar alguma coisa que elas querem vender.
Outro dia me ligaram às
7h20 da manhã para dizer que eu fora contemplada com a possibilidade
de adquirir certo cartão de crédito, numa incrível
promoção que incluía um cartão adicional. E,
antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a moça continuou de um
só fôlego: "Esse cartão adicional vai ser maravilhoso
para a senhora. Por exemplo: a senhora é casada?".
Confesso que aquilo me pegou
tão despreparada, mas tão despreparada, que acabei respondendo
com toda a intensidade do meu instinto de defesa, e omito aqui a resposta
para não ferir a sensibilidade do leitor.
Tá certo que eu ando
bem míope, ultimamente. Mas mesmo anos atrás, quando a minha
vista alcançava alguma coisa além de um palmo adiante do
nariz, eu já não conseguia enxergar lógica nenhuma
neste tipo de abordagem.
Outro grande enigma da humanidade
é a razão pela qual um vendedor de calçados tenta
nos empurrar um par que é dois números menor que os nossos
pés. Ou o raciocínio daquela dona de loja que pára
bem na nossa frente e vai apontando para as prateleiras: "Oi, querida!
Aqui estão as bolsas azuis, aqui estão as marronzinhas e
logo ali estão as vermelhas, tudo bem?".
Se você não
acredita no que eu estou dizendo só porque não viu com os
seus próprios olhos e nem ouviu com os seus próprios ouvidos,
prepare-se. Ninguém escapa de certos fatos da vida.
Faz muito tempo que coisas
dessa natureza me inquietam, mas noutra noite tive uma experiência
realmente incrível, em todos os possíveis significados da
palavra. Já era bem tarde e eu estava quietinha, escrevendo, quando
comecei a ouvir um barulho esquisito que acontecia em intervalos mais ou
menos regulares. Uma vez, duas vezes, três vezes. Chamei o meu feroz
cão de guarda e fui com ele investigar. O barulho foi me conduzindo
para a frente da casa, e abri a cortina da sala para ver se havia alguma
coisa estranha na rua: nada de diferente, só uma chuvinha gostosa.
Eu já ia desistindo da empreitada quando vi um clarão seguido
de fortes estalos: eram faíscas, muitas faíscas, que saiam
do alto de um poste que fica uns 30 metros adiante, se espalhando pelo
asfalto.
Bem, com eletricidade não
se brinca. Fui até o telefone e liguei para a companhia responsável.
Ouvi a mensagem introdutória inteirinha, naveguei pacientemente
pelo menu eletrônico, descobri que não havia nenhuma opção
que se enquadrasse - ainda que vagamente - no meu caso e decidi esperar
por um atendente. Passei por aquela sabatina toda que você já
conhece ou imagina, ajudei-o a montar um mapa de localização
destacando os vinte e oito pontos de referência mais próximos
e, finalmente, chegou a hora de contar o problema.
Foi tudo muito rápido:
em apenas sete ou oito minutinhos de explicações e repetições,
o atendente quase conseguiu compreender que do alto de um poste, 30 metros
adiante da minha casa, estavam saindo faíscas que mais pareciam
fogos de artifício.
"Faíscas. Entendido,
senhora. E os fios? Os fios de onde saem as faíscas estão
desencapados?".
Mesmo diante de tão
estranhas circunstâncias, eu não resisti e enfrentei o desconhecido:
"Eu não vi, filho. Não vi porque o poste está lá
na rua, vários metros acima da minha cabeça e, além
disso, são 3 horas da madrugada e está chovendo. Mas se você
precisa mesmo dessa informacão, posso telefonar agora mesmo para
o Corpo de Bombeiros e pedir que eles chequem para você. Como é
mesmo o seu nome?"
O efeito foi semelhante àquele
que os exorcistas conseguem quando mostram a cruz para um lobisomem. Percebi
o choque imediato. Senti que as influências maléficas abandonaram
o pobre rapaz, permitindo que, no mesmo instante, ele descobrisse que quatro
dos meus vizinhos já haviam comunicado a ocorrência e que
uma equipe técnica já fora destacada para verificar. Acredite
se quiser.
É por essas e por
outras que ninguém jamais vai conseguir me convencer de que fatos
como esse são naturais. E se não são naturais, só
podem ser sobrenaturais. E sendo sobrenaturais, são inexplicáveis.
E, em se tratando de coisas inexplicáveis, eu juro que preferiria
conviver apenas com os consagrados segredos da cozinha. Porque esses, ainda
que eu não decifre, pelo menos posso devorar.
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