| Família Trapo
Não sei bem o porquê,
mas sempre penso em escrever uma crônica com este nome quando volto
de um daqueles finais de semana em que a famiília inteira se reúne
na casa dos meus pais. É hoje.
Às vezes a gente vai
chegando aos poucos e a confusão começa devagar. Às
vezes chega todo mundo junto, e eu juro que nem sei o que parece.
De um jeito ou de outro,
a primeira coisa que acontece são quatro cachorros latindo, correndo
e pulando feito doidos. Nos carros, na gente, na bagagem. E tentando desesperadamente
lamber. Lamber qualquer coisa que se mova, com a mesma alegria que eles
sentem quando encurralam, rosnando, as pessoas que não fazem parte
da matilha. Não estranhe que cachorro é assim mesmo: inclui
as pessoas na matilha. Lá, portanto, o chefe da matilha é
o meu pai, e a gente deve ter status de colega.
Aí alguém abre
a porta e ninguém sabe se entra de uma vez e larga as mochilas,
se cumprimenta quem abriu ou se começa a gritar "fica, fica, fica"
ou "sai, sai, sai", se é que alguns dos "colegas" já conseguiram
entrar. Depois de uma pequena batalha, finalmente conseguimos separar as
espécies. Humanos pra dentro, cachorros pra fora. E é aí
que começa a segunda confusão.
Sete adultos tentam conversar
com os outros seis ao mesmo tempo, um adolescente tenta conversar ao telefone
e os bebês vão se metendo em todos os assuntos. A menina matracando
que nem uma patinha, o moleque fazendo "bé". Note que o "bé"
não é choro, não. É um "bé" de cabritinho,
puro e simples. Ele vai engatinhando rapidinho e dizendo "bé". Não
me pergunte por que.
Da Itália a gente
deve ter só uns dois por cento na carga genética. Se tanto.
Mas parece que são cem, incluindo o macarrão. Aliás,
falando em genética, veja só como a coisa se distribuiu:
como o meu pai fala alto e a minha mãe fala muito, tenho um irmão
que fala muito alto e outro que só fala muito. Mas vive pedindo
pra todos os outros abaixarem o volume. As cunhadas, tadinhas, essas vieram
de famílias muitíssimo mais civilizadas, e não conseguiram
ensinar nadica pra gente. Pelo contrário: acabaram se adaptando
maravilhosamente bem. Os sobrinhos, pelo menos, são normais: haja
o que houver, o adolescente continua ao telefone e os bebês continuam
se intrometendo em todos os assuntos. Uma chamando a mamãe e o outro
fazendo bé.
De mim não vou falar
nadica. Como todos os meus dois leitores já estão cansados
de saber, eu só ligo o computador pra falar da vida alheia. E tenho
dito.
Mas voltando à cozinha,
que é onde todo mundo se junta, chega um momento em que a minha
mãe berra um inocentíssimo "O que é que vocês
vão querer comer?". E é imediatamente soterrada por nove
vozes diferentes que falam, ao mesmo tempo, coisas mais ou menos assim:
"Sardinha na brasa!", "Nhoque!", "Cupim assado!", "Risoto!", "Churrasco!",
"Lasanha!", "Quarteirão com queijo!", "Batatinha!" e "Bé".
Mas um bé com direito a tradução simultânea
da prima: "Ele tá falando papinha, vó!".
Bom, democracia é
assim mesmo. Depois de alguma negociação, pelo menos cinquenta
por cento dos pedidos chega à mesa mais ou menos rapidinho. Desconfio
que ela tem tudo pronto no congelador.
E aí alguém
fala que vai pegar uma cerveja, e também é soterrado por
nove pedidos: "Faz uma caipirinha?", "Eu quero de vodka!", "Vinho tinto
pra mim.", "Que tinto, que nada. Me abre um branco.", "Tem Campari?", "Guaraná
diet, por favor", "Dá uma Coca Cola?", "Tóta-tóia,
tóta-tóia" e "Bé". De novo com tradução:
"Ele tá falando leitinho, tio!" Mas aí não tem democracia,
não. É cada um pra si, com mordomia apenas pra quem é
dono da casa ou ainda não tem tamanho pra abrir a geladeira.
Aí vem a refeição,
que você já pode imaginar como é. E, depois de arrumar
a cozinha, cada um vai pro seu canto, cochilar. E quando a gente acorda,
seja de noite, seja de manhã, a maluquice recomeça no quarto
do chefe da matilha. Quem chega primeiro vai se empilhando no ninho. Quem
chega depois se acomoda ao redor, porque a pilha já quebrou o estrado,
uma vez. E aí são seis adultos falando ao mesmo tempo uns
com os outros, um adulto fazendo psiu porque quer ver televisão,
um adolescente falando ao telefone, um bebê matracando e o outro
chupando o cobertor e fazendo bé.
Se for de noite, não
tem lá muita democracia gastronômica. Porque, de noite, a
pergunta da mãe é assim: "Vocês vão comer pizza,
né?". E aí, milagrosamente, as nove vozes são mais
ou menos unânimes. Portuguesa. Mas sempre sobram meia de escarola
e uma inteira de muzzarela praticamente intocadas, e ninguém nunca
descobre quem foi que escolheu.
Se a gente for ficar mais
um dia, a coisa se repete com pouca variação. Se não,
todo mundo começa a se preparar para sair ao mesmo tempo, como reza
a tradição. As mulheres vão recolhendo as tranqueiras
e juntando a bagagem na cozinha. Os homens vão levando tudo pros
porta-malas. Cada marido sabe quais são as tralhas da sua prole,
mas o meu pai, que é o dono da prole inteira, não conhece
sacola de ninguém e sempre quer ajudar. Aí, bem no meio daquele
entra e sai e sobe e desce e fala, fala de sete adultos, um adolescente
e dois bebês, ele levanta os volumes e pergunta: "Isso aqui vai no
carro de quem?". Geralmente, a única resposta que recebe é
um indiferente "e eu sei lá?" da minha mãe. E é aí
que o bicho pega. Mas ninguém consegue ouvir direito por causa dos
gritos de fica, fica, fica ou sai, sai, sai. Nossos colegas são
incansáveis.
Então acontece um
pequeno reboliço até que o controle do portão finalmente
seja localizado em local bem improvável, o adolescente é
convocado a desligar o telefone, os carros começam a sair, os cachorros
fogem e todo mundo grita entra, entra, entra, as pessoas vão atravessando
o quintal com os bebês ou o que sobrou do almoço no colo,
uns voltam para procurar chaves, outros voltam para buscar coisas esquecidas,
alguém se lembra de fazer xixi, e, depois de uns quarenta ou cinqüenta
minutos, finalmente todo mundo grita tchau e os carros desaparecem na curva
da rua.
Eu já fiquei por lá
depois que a turba ensandecida foi embora. E o silêncio que sobra
é tão profundo e tão assustador, que parece que acabou
de passar um furacão.
.... |