| Minutos de reflexão
De repente o aparelho de
DVD parou de funcionar e eu fiquei possessa. Possessa, chateada, irritada,
perdida e me sentindo um tanto quanto incompleta. E continuei me sentindo
exatamente assim durante os vinte e um dias que passei sem o talzinho.
O interessante da história
é que eu não estava assistindo nada de especial no momento
em que dei com o defeito, não sou aficionada por cinema, mal tenho
tempo de parar na frente da televisão e jamais havia pensado em
comprar um treco desses até aquela linda manhã de sábado,
quando entrei num hipermercado pela porta errada e dei de cara com aquela
promoção. E quer saber de uma coisa? Comprei muito mais o
"preço baixo em quinhentas vezes sem juros no meu cartão
de crédito" do que a possibilidade de assistir a um filme ou outro
sem ter que rebobinar a fita, depois.
Tá. Pode me chamar
de consumista desequilibrada, se quiser. Mas só se você tiver
provas irrefutáveis de que nunca fez algo parecido antes, durante
ou depois. E não precisa ficar pensando nisso agora, porque hoje
eu só liguei o computador para refletir um pouco sobre a imensa
capacidade que o ser humano tem de criar laços afetivos e de dependência
física com determinados objetos exóticos que nem existiam,
tempos atrás. Isso pra você ter uma idéia do quanto
um defeito no leitor ótico principal de uma caixinha prateada é
capaz de fazer uma pessoa comum filosofar.
Não vou ficar falando,
é claro, naquelas coleirinhas eletrônicas que as pessoas costumam
levar no bolso, na bolsa ou na cintura, só pra ter certeza absoluta
de que serão cruelmente interrompidas nos momentos mais inoportunos.
Mas já que entrei no assunto pelo campo das telecomunicações,
aproveito para perguntar como é que você se sente quando acaba
a bateria do seu telefone sem fio. Sim, porque, pelo menos para mim, o
fim da bateria do telefone sem fio representa a volta àquela vida
primitiva em que eu era obrigada a levantar e caminhar três ou quatro
metros para atender a uma simples ligação. Ou seja: uma verdadeira
tortura.
Pior do que isso, só
quando o controle remoto pifa. Não importa qual dos seus dezessete
controles remotos pifa. O que importa é que, sem ele, você
vai ter que levantar inúmeras vezes e, ainda por cima, vai ter que
descobrir como é que funcionam os botões do aparelho, se
é que no aparelho tem algum botão. E nem adianta pensar em
recorrer ao manual de instruções porque, até onde
a minha cansada vista alcança, todos eles foram escritos especialmente
para confundir.
Mas falemos sobre coisas
mais simples. Falemos sobre a falta que faz um mero acendedor automático
de fogão. Parece bobagem, mas noutra noite cheguei em casa muito
tarde e sem o meu isqueiro. É claro que, quando decidi acender um
cigarro, fui direto para o fogão. Necas de pitibiribas. Odeio fósforos,
mas mesmo assim revirei cada gaveta atrás de uma caixa. É
claro que não encontrei porque, como já disse, odeio fósforos.
E é claro que eu não poderia recorrer ao vizinho porque,
como já disse, era muito tarde. E é claro que lá fiquei
eu, desconsolada e prostrada numa cadeira da copa, calculando se seria
mais fácil esfregar dois pauzinhos ou ligar para uma cooperativa
de táxis e pedir que me trouxessem um isqueiro. A vontade de fumar
até passou, mas a impossibilidade de fazer um simples foguinho em
casa me deixou louca da vida. Se fosse preciso, eu poderia até esquentar
a água do banho no microondas. Mas não teria como produzir
uma faisquinha, sequer. Nem para remédio. Foi aí que eu descobri
que até as menores coisas da vida podem nos levar a uma imensa sensação
de impotência.
Ainda mais impotente e louca
da vida eu fico quando a Internet sai do ar. Sim, porque a Internet nunca
sai do ar quando a gente está dormindo ou cuidando do jardim ou
passeando no shopping ou dando banho no cachorro. A Internet só
sai do ar quando a gente está precisando muito dela. E eu aposto
que, pelo menos nessa área, você pode testemunhar a meu favor.
Sua conexão pode ser rápida ou discada, seu provedor e seu
modem podem estar com problemas ou não: nenhuma condição
técnica ou espiritual parece fazer diferença quando as linhas
do destino dizem que você vai ter que passar algum tempo fora da
rede.
Nesta semana, por exemplo,
um conserto no bairro onde trabalho fez com que o escritório passasse
três dias sem uma das linhas telefônicas. E, como seria de
se esperar, a linha muda era justamente aquela que nos dá acesso
à Internet. Quer saber de outra coisa? Eu esqueci completamente
como é que se trabalhava antes da existência de uma linha
direta com o mundo.
Confesso que foi uma semana
difícil. Tão difícil quanto seria imaginar, uns vinte
anos atrás, uma rede de comunicação como a Internet.
Ou tentar imaginar, na mesma época, que um dia os filmes seriam
gravados digitalmente em pequenos discos metálicos, brilhantes e
muito lisos, e que bastaria colocá-los numa caixinha prateada para
que um certo leitor ótico principal interpretasse a gravação.
A não ser, é claro, que estivesse com defeito.
Já nos dias de hoje,
o que eu acho extremamente difícil é compreender por que
cargas d'água, com toda a tecnologia existente e disponível,
o ser humano ainda precisa de vinte e um dias para descobrir que é
mais fácil trocar um aparelho de DVD inteiro do que apenas um leitorzinho
ótico principal. Parece ficção científica,
eu sei. Mas sou uma mulher de fé, e estou certa de que, um dia,
a ciência nos dará uma resposta lógica para esta misteriosa
questão.
E, enquanto isso não
acontece, é melhor eu aprender de uma vez por todas a entrar nos
lugares pela porta certa e a passar bem longe das promoções.
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