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Uma inteira sobre meias 

Meias finas, meias grossas, esportivas, sociais, meias-calças, meias soquete, três quartos, cinco oitavos, de seda, de lã, de nylon, poliester, algodão, tanto faz. Odeio todas elas com igual intensidade. 

Não, não tenho nada contra as meias enquanto pessoas humanas. Até acho que algumas são belíssimas, que outras são bastante simpáticas e que várias têm carinhas muito fofas. Na verdade, só odeio as meias quando elas estão calçadas nos meus pés. Com a costura machucando os artelhos. Ou com o elástico apertando os tornozelos. Ou repuxando. Ou carimbando a trama na minha pele. Ou sendo simplesmente engolidas pelo sapato. É, no singular, mesmo, porque nesta função de engolir meias, os sapatos sempre trabalham um de cada vez. Maniazinhas que odeio com igual intensidade. 

E nessa, os homens sempre saem ganhando. Não, não é machismo da minha parte. É que, em última instância, os homens sempre podem contar com as calças para esconder a ausência das meias. E quando não estão de calças, eles também não precisam das meias. 

Mas pense no caso da mulher. Para início de conversa, nem sempre é possível para uma mulher usar calças compridas. Aliás, nos momentos mais importantes e solenes nunca é. Como no altar de um casamento, por exemplo. Enquanto os homens podem ir sem meias que ninguém nem desconfia (menos o noivo, que esse quando ajoelha não tem jeito), a mulherada toda, incluindo a própria noiva, não pode nem pensar numa barbaridade assim. Porque, seja qual for a moda do momento, sempre haverá pernocas de fora. Às vezes um pouco mais, às vezes um pouco menos. Mas sempre haverá. 

E é aí que residem as minhas únicas opções: de um lado a tortura chinesa, de outro os gambitos nus e crus. Ambos capazes de arruinar o mais caprichado dos visuais. 

Se for verão, às vezes um bom bronzeado resolve. Mas, se for inverno, nada pode de dar jeito. Porque pele arroxeada de frio, não há Cristo que disfarce. Talvez seja por isso que os homens escoceses nunca sejam vistos com a saia e sem as meias. Incluindo os que odeiam meias. 

Sempre que desço a lenha em alguma coisa que me incomoda, faço questão de deixar uma sugestão. Crítica construtiva, sacumé. Mas meias (pelo menos as que estão calçadas em mim) são coisas tão odiosas, mas tão odiosas, que nem sugestão que preste eu tenho pra dar. Pensei em algumas, mas até eu mesma sou contra. 

Por isso, pela primeira vez neste site, estou escrevendo só pra me queixar. E vou aproveitar que isso aqui virou uma crônica inteira sobre meias para deixar o meu protesto contra algumas homônimas que elas têm. As meias verdades, as meias mentiras, tudo o que é meia-boca e, sobretudo, as meias porções. De qualquer coisa gostosa que seja.

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