Cocteau e eu
"Nossa! Que cara mais horrorosa!"
Todo santo dia ele faz uma
observação desse tipo logo que eu acordo, de manhã.
Poderia, ao menos, dizer bom dia primeiro. Mas ele não tem a menor
sensibilidade. E muito menos educação.
"Credo! O que aconteceu com
o seu cabelo?"
Eu apenas suspiro e tento
ajeitar. Gosto dele, apesar dos pesares. E somos íntimos desde…
acho que desde sempre. O que não deixa de ser uma forma de tortura.
Além de ele estar
sempre na minha casa, nós nos encontramos o dia inteiro. Em quase
todo lugar. Às vezes estou zanzando pela rua e dou de cara com ele:
"O que foi isso? Babou café
na blusa?"
Ai, ai. Ou então:
"Seu colarinho está
bem amassado. Você tem mesmo que botar a alça da bolsa bem
aí?"
Ou eu entro no elevador e
ele está lá:
"O que é isso nos
seus ombros? Caspa?"
Dou uma espanadela rápida
com as mãos e nem respondo.
"Tá aparecendo a marca
da calcinha!" ou "Deus me livre! Esse vestido aumenta a poluição
visual da cidade."
E têm muitas, muitas
outras mais. Um verdadeiro grosso.
Mas, geralmente, o meu humor
está tão bom que nem ele consegue me azedar:
"Não tá vendo
que esse colar não combina com os brincos? Ficou over." Ou: "Isso
aí é pose de perua."
E eu olho para o outro lado.
Se estou me sentindo bem deste jeito, ele que vá se danar. Só
que de vez em quando ele exagera:
"Essa roupa te deixa uma
baleia."
Dou uma ajeitada geral, mas
ele continua observando.
"Não, não é
culpa da roupa: é você que está uma baleia."
E eu prometo tentar emagrecer,
pensando só nos momentos bons. Naqueles momentos tão felizes
em que ele me encara satisfeito e eu sinto, na hora, que vou arrasar.
Mas o maldito nunca me faz
sentir assim quando eu estou precisando. Ao contrário. Para tais
ocasiões, ele sempre reserva alguma coisa como:
"Chi! Será que alguém
anotou a placa do caminhão?".
Confesso que é bem
difícil. Pra não dizer infernal. Mas eu agüento calada
porque simplesmente não consigo me ver sem ele.
Só acho que, como
já disse Jean Cocteau certa vez, o espelho deveria pensar duas vezes
antes de refletir (principalmente se quem está diante dele sou eu).
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