| Livrai-me do mal, amém
Pela vigésima vez
entro numa loja e digo clara e pausadamente: "eu procuro uma camisa preta
de viscose, com mangas compridas e tamanho G. Vocês têm?" E
a moça, com aquele ar inteligente de quem entendeu tudo direitinho,
responde clara e pausadamente, também: "sim, senhora, um instantinho
só".
E um instantinho só
vira dois, três, cinqüenta e sete instantinhos só e eu
lá, feliz da vida por ter encontrado - finalmente - a tal da camisa.
Lá pelo septuagésimo oitavo instantinho só, a moça
volta trazendo alguma coisa nas mãos. E, toda animada, me mostra
a coisa: "olha aqui! é de seda pura!" E abre na minha frente uma
blusinha cor de violeta, mangas curtas e tamanho M. Tento sorrir amavelmente
pela vigésima vez: "acho que houve um engano, porque eu pedi uma
camisa preta de viscose, mangas compridas e tamanho G. Tem ou não
tem, afinal?" E ela me olha como se eu fosse completamente louca: "mas
esta aqui está vendendo muito!"
Sentindo o sangue subir à
cabeça, só me resta sorrir com sarcasmo: "que pena! quer
dizer que quando eu sair com ela vou encontrar uma porção
de gente vestida igual? detesto isso, moça, e obrigada".
Eu juro que sempre que vou
fazer compras procuro manter a calma e as boas maneiras. Mas nas dezenove
tentativas anteriores já tinham tentado me empurrar de tudo, ao
invés de uma simples e muito bem explicada camisa preta de viscose,
com mangas compridas e tamanho G. Esperei centenas, talvez milhares de
"um instantinho só" para ser bombardeada com camisetas de nylon
azuis tamanho P, saias de linho vermelho tamanho GG, calças de cotton
lycra amarelas tamanho único, biquinis floridos sem tamanho nenhum
e todo tipo de camisa. Menos uminha só que fosse preta ou feita
de viscose ou com mangas compridas ou no tamanho G.
Será que está
na moda aborrecer a clientela?
Vou andando entre chateada
e indignada pelo shopping quando noto, numa vitrine, um par de tênis
com a carinha da minha sobrinha. Imediatamente ligo para a mãe dela
pra perguntar o número. E descubro que é vinte. Desligo e
cumprimento a atendente que, toda solícita, já se postara
do meu lado no início do telefonema: "por favor, eu quero levar
estes tênizinhos aqui. Número vinte". A moça abre um
largo sorriso: "pois não, é só um instantinho, senhora!"
Quarenta e três instantinhos
mais tarde ela volta. Tinha mandado alguém ao estoque, logo ali,
no piso superior. "Só mais um instantinho". E em só mais
uns oitenta e dois instantinhos, a moça reaparece na minha frente
com os tênis na mão: "aqui estão, senhora, tamanho
dezesseis, lindinhos, né?"
"Como dezesseis? Eu preciso
do vinte!" E aí ela dá início àquela conversinha
cretina de sempre: "mas senhora, este modelo só é fabricado
até o número dezesseis. Qual é a idade da nenén?"
Oras bolas! Que diferença
a "idade da nenén" pode fazer, se a mãe dela acabou de me
dizer que o número é vinte? Respiro fundo para conter a fumaça
quente e cinzenta que ameaça sair pelos meus olhos e orelhas: "desculpe-me,
mas como reduzir os pés da minha sobrinha está além
do meu desejo e da minha capacidade, agradeço por sua atenção
e gentileza mas não vou levar". E ela prega uma expressão
de espanto e revolta no rosto. E depois a louca sou eu.
Senhor, por que é
que essas coisas sempre acontecem comigo? E não são só
essas, Senhor! Vira e mexe, quando peço um produto, os atendentes
me respondem que "tem mas acabou" ou que "não vão estar tendo".
E pior, Senhor: eles nunca sabem me informar a partir de quando não
vão estar tendo.
E tem mais: toda vez que
entro numa loja, ainda que seja num grande magazine, do tipo pegue e pague,
alguém gruda no meu calcanhar e insiste em me "dar uma ajuda". E
mesmo que eu diga que só estou olhando, Senhor, sempre insistem
em me perguntar se estou "procurando algo especial". E quando agradeço
dizendo que não, Senhor, completam perguntando se "é para
a senhora ou é para presente". Como se isso mudasse alguma coisa.
Como se alguém tivesse o poder de me convencer de que eu preciso
de uma minissaia verde ao invés de uma camisa preta. Ou de um par
de sapatos menor ou maior que os meus pés. Ou de que o meu pai "vai
adorar esse cachimbo" só porque "está saindo muito".
Meu pai nem fuma, Senhor.
E, além do mais, isso lá é argumento de venda?
Senhor, o que mais me tira
do sério é que eles nunca me ouvem! Parece que estão
em transe. Ou que decoraram um script e não conseguem sair dele,
seja qual for o meu pedido ou a minha resposta.
É por isso, Senhor,
que venho à sua presença implorar humildemente: livrai-me
dos vendedores irritantes. Ou fazei, pelo menos, com que eu fique muito
mais burra e não perca, assim tão facilmente, a minha preciosa
e já escassa paciência.
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