| O zap enquanto fenômeno
sócio-cultural: uma abordagem psíquico-televisiva.
O primeiro indício
de que você está sendo atingido pelo zap é a ocorrência
de um fenômeno comum em muitos lares, mas para o qual - pelo menos
no início - ninguém dá muita bola: você se joga
naquela poltrona gostosa que está bem na frente da TV e fica lá,
olhando a telinha distraidamente. Aí o Antônio Fagundes (ou
qualquer outro monumento menos cotado) começa a falar alguma coisa.
Mas você nota que o som não combina. E aí você
pisca pra entender por que o Antônio Fagundes estaria falando com
voz diferente e em dialeto de motoboy. Mas percebe que o que você
está vendo, de fato, é uma entrevista com um motoboy. E aí
você pisca de novo para entender por que estariam entrevistando um
motoboy em plena novela das oito. E, naquele milésimo de segundo
que dura uma piscada, a entrevista se transforma em balé. Ou em
perseguição policial. Ou na lista de ingredientes de uma
receita culinária. Ou na segunda edição do telejornal,
sei lá.
Quando isso acontecer (ou
acontecer de novo) com você, basta olhar à sua volta. Você
vai identificar na hora uma pessoa das suas relações que
está acometida pela síndrome do zap. Sim, é aquela
ali, que está com o controle remoto na mão. Aquela que você
chama de marido, de esposa, filho, filha, tio, tia, pai, mãe, irmão,
irmã ou seja lá do que for, mas que o resto do mundo sempre
irá identificar como "o zapper", obedecendo às convenções
científico-sociais.
A síndrome do zap,
assim como a gordura localizada, pode atingir a todo e qualquer ser humano,
só divergindo quanto à condição indispensável
para o seu desenvolvimento. É que no caso do zap - embora as pessoas
costumem ingerir quantidades absurdas de qualquer coisa do gênero
alimentício diante de uma tela - a soma das calorias é irrelevante.
Na verdade, basta haver acesso direto a um aparelho de televisão.
Cientistas renomados afirmam
que o zap surgiu com a invenção do controle remoto. Mas isso,
segundo a minha larga experiência pessoal, é um redondíssimo
engano. Muito antes do controle remoto chegar à nossa casa, meu
pai já era um zapper. Dos profissionais. E a sua ferramenta preferida
para o pleno exercício dos sintomas era eu.
"Troca o canal?" e eu, que
já ficava sentadinha bem perto do aparelho pra facilitar a operação,
ia girando o seletor até ele dizer "deixa aí, deixa aí".
Mas o sossego durava bem pouco, porque ele logo repetia o mesmo pedido,
em tom suplicante: "troca o canal?".
É bem verdade que
a invenção do controle remoto - e mais especificamente sua
chegada à classe média - me libertou. Mas só me libertou
de ficar ali, do ladinho do aparelho. Porque até hoje ver televisão
com o meu pai é uma espécie de missão impossível.
Ou de quebra-cabeças. E, dessa vez, o tom suplicante sempre parte
de mim: "Não troca o canal! Não, por favor! Deixa aí,
deixa aí". A diferença é que, em geral, minha súplica
é amplamente ignorada.
Recentes pesquisas demonstram
que, em 97,3% dos casos, o que determina a posse do controle remoto não
é a hierarquia familiar, como muitos pensavam até então,
mas sim uma terrível compulsão que se tem mostrado mais comum
nas pessoas do sexo masculino. Tais dados só vieram comprovar o
que todas as mulheres já estão cansadas de saber, uma vez
que os homens não estão sempre no comando, embora, por razões
que se originam na velha e boa política doméstica, normalmente
sejam levados a acreditar que sim.
Um alerta: se você
é mulher e conhecer um homem maravilhoso, antes de enfiar na cabeça
que ele é o amor da sua vida, faça o teste da televisão.
E faça repetidas vezes, porque acredita-se que os zappers do sexo
masculino sejam capazes de disfarçar sua condição
até ter certeza absoluta de que as parceiras estão apaixonadas.
Sabendo disso, se você
for esperta certamente terá muito tempo pra descobrir se o sujeito
é um zapper ou não, antes de se apaixonar completamente.
E, se ele for, você terá tempo, também, para decidir
se vale mesmo à pena lhe conceder o poder absoluto sobre o que você
não irá ou não irá assistir daquele momento
em diante.
Não se engane: eu
disse não irá ou não irá, mesmo, porque é
impossível assistir a qualquer coisa com um zapper por perto.
E se você decidir que
sim, que vale à pena conceder-lhe todo esse poder (e às vezes
vale, acredite), é preciso ter em mente um plano dois, para evitar
aborrecimentos futuros. Por exemplo: quando a voz do Antônio Fagundes
(ou de outro monumento menos cotado) ficar meio diferente (e nem precisa
falar em dialeto), uma das alternativas é mudar de cômodo
e de aparelho de televisão. Outra bem mais legal, diga-se de passagem,
é entrar na Internet e zapear à vontade, com as suas próprias
mãos. Até encontrar este site. E ler este texto inteirinho,
sem interrupções. Que tal, heim?
.... |