| A Primeira Diretriz
Conforme todos os meus três
leitores já sabem, sou fã nº 2 de Jornada nas Estrelas,
a Nova Geração. Só não sou nº 1 porque
não consigo entender o que é antimatéria, não
tenho a miniatura da nave e nem uso o uniforme da Frota Estelar pra encontrar
os amigos.
Você pode ser, digamos,
o fã nº 142.537. Ou talvez nem gostar da série. Mas
convenhamos que ela já tá bem antiguinha pra todo mundo saber
que a missão da Enterprise é conhecer novos mundos e pesquisar
novas vidas, novas civilizações. Audaciosamente indo onde
ninguém jamais esteve.
E eu, na qualidade de fã
nº 2, confesso que também fico observando outras formas de
vida. E que tenho encontrado algumas muitíssimo interessantes, mesmo
sem tirar os pés da Terra.
Ahá! Cê tá
pensando que eu vou falar em insetos exóticos, aves raras, animais
em extinção ou, quem sabe, naquelas colônias de bactérias
que adoram infernizar nossas gargantas, né? Nananinanão:
eu vou falar de gente muitíssimo parecida com a gente. Que vive
entre a gente. Que poderia até mesmo ser a gente, a não ser
por uns detalhezinhos assim… meio esquisitos.
Agora cê tá
pensando que eu vou falar de alienígenas, né? Daqueles que
se misturam com os terráqueos com o objetivo de dominar o planeta,
né? Pois errou de novo, porque isso é da série Os
Invasores (se você não conhece essa, não se preocupe:
provavelmente não tem idade pra tanto).
Mas, qualquer que seja a
sua idade, você certamente já viu (e ouviu muitíssimo
bem) alguns exemplares de uma espécie que surgiu há alguns
anos e tem se multiplicado de forma assustadora: os "performáticos
do celular".
O "performático do
celular" clássico pode ser encontrado em todo e qualquer lugar.
Mesmo nos mais improváveis e impróprios como teatros, cinemas,
banheiros de shopping, filas de banco e ao volante de automóveis
em movimento. E você pode identificá-lo facilmente pelo show
que ele dá ao telefone sempre que tem gente estranha ouvindo a conversa
(e, cá entre nós, os "performáticos do celular" são
verdadeiros especialistas em garantir a maior platéia possível).
Como acontece em todo espetáculo,
a função começa ao terceiro sinal. É quando
ele atende e você passa a ouvir, mesmo que esteja bem distante, o
alô e a vida inteira do sujeito. Incluindo os detalhezinhos mais
sórdidos.
E, para que ninguém
corra o risco de perder nadica, o "performático do celular" que
se preza desenvolveu a técnica de caminhar enquanto berra. E, normalmente,
caminha em círculos ou de lá pra cá. Pode reparar.
Mas, quando não tem
muita gente estranha por perto, pode ir se conformando que a vítima
será você. Sem dó nem piedade.
Eu mesma já fui vítima
de narrativas incríveis. Desde a do jovem que ligou para o amigo
só pra "avisar" que na noite anterior deu "uns beijos" na fulana,
até a da sicrana que descreveu, sabe-se lá pra quem, o resultado
completo do seu papanicolau. Incluindo os nomes dos fungos e bactérias
encontrados. O jovem estava num café. O que não seria tão
estranho, se não fosse ele quem servia o café. A sicrana,
por incrível que pareça, estava na fila do açougue.
Bem, pelo menos quando eles
falam em outras línguas a gente não fica exposto a tanta
intimidade. Mas você já reparou que, quando falam em outras
línguas, eles conseguem falar mais alto ainda?
E também tem aquele
outro aparelho que parece um celular com função de walk talk.
Esse é completo: você ouve quem está perto e quem está
do outro lado. Dia desses, num restaurante, mal consegui bater papo com
meu colega de trabalho porque, bem do nosso lado, tinha um rapaz relatando
suas paqueras em São Paulo para um animadíssimo interlocutor
que não conhecia a cidade. Os dois falando no último volume,
é claro.
Às vezes tenho que
me segurar pra não fazer um sonoro "psssssssssssiu".
Mas, como se sabe, em Jornada
nas Estrelas tem uma regra muito séria que é conhecida por
Primeira Diretriz. E, segundo a Primeira Diretriz, é proibido, errado
e até mesmo inaceitável interferir na evolução
de qualquer forma de vida, por mais atrasada ou irritante que ela seja.
E eu, na qualidade de fã nº 2 da série, me sinto na
obrigação de respeitar a Primeira Diretriz como o capitão
Jean Luc Picard o faria: ouço tudo, não me intrometo em nada
e, assim que consigo, caio fora.
Porque a própria natureza
- um dia - vai fazer com que todas as espécies "cheguem lá".
Se Deus quiser.
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