| Nó na língua
Não tenho nada contra
o emprego de anglicismos, galicismos ou de quaisquer outros "ismos", a
não ser radicalismos. Tanto que uso o mouse todo dia, acendo o abajur
toda noite, deleto idéias ruins a toda hora e, ultimamente, dei
pra restartar ao invés de cochilar.
Também entendo perfeitamente
que alguns desses "ismos" foram adaptados, que outros mativeram a forma
original e que uma parte deles até chegou a ser traduzida. E continuo
não tendo qualquer problema com isso. Veja o caso dos coquetéis.
Além de adorar coquetéis, acho que eles estão muitíssimo
bem resolvidos, embora ainda exista quem os chame de cocktails. Tudo bem.
Afinal, acho que encarar um bom cocktail é muitíssimo melhor
do que vestir o pretinho básico só pra tomar rabo de galo.
Tá certo que vejo
um certo exagero nas pessoas que ainda reinicializam micros e programas,
quando poderiam simplesmente reiniciar. O que, cá entre nós,
surtiria o mesmíssimo efeito e seria bem mais rápido.
Só que têm outros
tipos de exagero que não me entram na cabeça de jeito nenhum.
Como o delivery, por exemplo. É importante deixar muito claro que
eu gosto demais do serviço. Mas sempre que ouço ou leio a
tal palavra, fico com aquela impressão esquisita de que só
adotaram esse nome, aqui, por causa de uma preguiça danada de procurar,
na gramática, como é que se faz direito a entrega. Ou por
achar que "entrega em domicílio" é pernóstico. O que,
por sinal, vai diretamente de encontro ao motivo daqueles que adotaram
o delivery só pra sofisticar.
E aí eu fico pensando:
se toda essa mistura lingüística é só pra vender
um serviço, será que não seria muito mais rentável
se o maior número de consumidores prováveis pudesse entender,
no ato, qual é esse serviço? Ou será que todas as
pessoas que gostam de entregas já aprenderam a falar inglês?
Ou será que o dinheiro de quem ainda não fala inglês
não interessa? Duvideodó.
Tá vendo como é
que começa um grande mal entendido? Porque, na verdade, eu aposto
que isso tudo aconteceu por acaso, sem que nenhuma dessas hipóteses
fosse sequer considerada. E que o delivery entrou na história inocentemente,
por conta de um modismo infeliz. Tão infeliz que nem fala dessa
coisa simpática que é entregar as compras na sua casa.
Quer outra palavrinha que
entrou no embalo de gaiata? Sale. Ou "sêil", para os iniciados. Sale
é aquela palavra que apareceu nas vitrines quando a liquidação
saiu de moda. É aquilo que tampa a entrada das lojas com papel de
embrulho e bota todos os preços em off. E que, com isso, faz muita
gente não entrar na tal da loja, por imaginar que esse off é
o mesmo off dos aparelhos de som e que, portanto, só pode estar
indicando que a loja está entre 20% e 50% desligada. Pois é.
E o mais engraçado
disso tudo é que quando os negócios não vão
bem, ninguém questiona se esse tipo de frescura está dando
um nó na cabeça do consumidor. Afinal, é muito mais
fácil e rápido botar a culpa inteira na crise ou inventar
uma recessão pro mercado. Believe-me or not.
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