| Confuso horário
Você já ferveu
laranjada pensando que era leite? Já passou inseticida na cabeça
na certeza de que era fixador de cabelo? Já se queimou diversas
vezes - e nas partes mais improváveis do corpo - tentando tirar
dobras e amassadinhos da roupa, sem antes sair de dentro dela? Não,
né? Então parabéns! Você foi escolhido pela
natureza para ser uma pessoa diurna. Ou, quem sabe, uma pessoa noturna
que consegue viver dentro do seu próprio fuso horário.
No meu caso, como você
já percebeu, as coisas são meio diferentes. Depois de passar
mais de quarenta anos aos tropeços, achando que a solução
da minha vida seria atuar com os Trapalhões, finalmente fui informada
de que sou uma pessoa noturna que tem que fazer tudo ao contrário.
Sim, porque segundo o meu
organismo, o certo seria acordar lá pelas onze ou meio-dia, me dedicar
ao lazer e às atividades pessoais até umas oito da noite
e só então começar a trabalhar. Nestas condições,
o serviço renderia maravilhosa e ininterruptamente até as
quatro ou cinco da manhã: um belo horário pra ir deitar.
Mas como o mundo é
diurno, e pelo menos oficialmente a minha profissão também
o é, eu vivo na contramão do tempo. E sempre dá no
que dá.
Tudo bem, eu respeito as
pessoas diurnas. Invejo sua imensa capacidade de desfrutar o frescor das
manhãs orvalhadas e de dar conta de listas e listas de coisas antes
que eu consiga tirar o suéter das costas. Ou de me livrar dos óculos
escuros. Note, ainda, que eu nem as recrimino quando elas bocejam durante
o jantar. Por que, então, sempre aparece algum engraçadinho
pra me desejar boa tarde às dez e meia da manhã? Por que
sempre supõem que eu passo as noites bebendo com os amigos? E, sobretudo,
por que o mundo insiste em marcar reuniões em qualquer horário
antes das onze e quarenta e cinco da manhã?
Bom, também é
preciso dizer que, depois de algum tempo de convivência, os meus
colegas de trabalho sempre procuram me poupar. Afinal, prevenir acidentes
é dever de todo cidadão. Mas quando isso não é
possível, confesso que vou aos lugares só de corpo presente.
Porque a alma fica lá, encolhida no maciozinho do estômago,
dormindo profundamente. E, enquanto isso, o meu desastrado piloto automático
vai me deixando sair de casa sem absorvente higiênico, mesmo estando
menstruada. Isso só pra dar um exemplozinho básico do tipo
de barbaridades que um fuso horário confuso é capaz de promover.
Mas já que a vida
é mesmo assim, pelo menos uma coisa me consola: de insônia
- e disso tenho a mais absoluta certeza - eu nunca vou sofrer. Graças
a Deus.
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