| Receitinha para (quase)
tudo
Tirar calo, afastar mau-olhado,
espantar gente chata, evitar que chova, afugentar formigas, ficar de bem,
descobrir sexo de bebê, ter parto normal, dominar marido bravo, melhorar
de vida, amansar a sogra, curar bebedeira, parar soluço, sumir com
terçol.
Se você não
entendeu nada até este ponto da conversa, é porque não
tem a menor idéia de quanta coisa útil a gente é capaz
de aprender convivendo por mais de vinte anos com três senhorinhas
um tanto quanto bruxas: uma bisavó de Botucatu, uma avó de
Santa Cruz das Palmeiras e outra avó de algum lugar remoto no interior
da Hungria.
Amolecer carne, encontrar
objetos, chamar dinheiro, ter sono tranqüilo, parar soluço,
afastar rival, atrair chuva, curar loucura mansa. Só não
me ensinaram a arrumar marido porque tinham medo de que eu usasse a receita
certa com o homem errado. E o resultado taí: eu sei até tirar
quebranto, mas continuo solteira até hoje.
Afastar mau humor, melhorar
a memória, secar verruga, ter boas idéias, fazer amigos,
evitar os raios, atrair felicidade, progredir no trabalho, tirar cisco
de olho. Bem que tentaram me ensinar a perder peso, mas naquele tempo eu
era tão magrinha que nem prestei atenção. E o resultado
taí: hoje eu sei até tirar cheiro de queimado da comida,
mas continuo em plena fase de crescimento.
Espantar cobra, evitar maledicência,
ter sonhos bons, encontrar pessoas, fazer o cabelo crescer, receber velhas
dívidas, evitar bicho de pé e curar espinhela caída,
seja lá o que isso queira dizer. Mais de vinte anos de aprendizado,
e nada capaz de amansar vírus de computador. Nenhum remedinho pra
afastar telemarketing. Nadica de nada que acabe com congestionamento no
trânsito ou com queda de sistema bem quando chega a sua vez na fila
do banco.
Já virei vassoura
atrás do hd, já fiz cruz de arruda no telefone, já
botei nome de rua em pote de mel e até passei dente de alho em caixa
eletrônico. Só não pendurei santinho de ponta-cabeça
no poço porque na minha casa não tem mais poço. Mas
acho que também não resolveria, porque nem existe santinho
certo para esse tipo de coisa.
Se pelo menos fosse cobreiro,
eu não entraria em crise existencial. Se fosse olho grande não
haveria stress. Se fosse língua solta não teria problema.
Mas o que é que pode toda a velha simpatia do mundo contra os males
da vida moderna? Até onde a minha mística visão alcança,
nada. E o resultado taí, pra todo mundo ver.
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