| Bom dia por quê?
"Serviço de taxi Maria
Silva bom dia?"
Estranhou a construção
da frase? Pois é de se estranhar, mesmo. Primeiro, porque não
é o serviço de taxi que se chama Maria Silva. A Maria Silva
é que é atendente telefônica do tal do serviço
de taxi. Depois, porque meia noite e cinco não é dia coisíssima
nenhuma. É exatamente o meio da noite.
Mas não tem jeito.
Parece que é moda entre os serviços telefônicos atender
às ligações assim. Falando bem rapidinho, botando
um ponto de interrogação no final da frase e fazendo você
se sentir como se já devesse estar dormindo há muito, muito
tempo. O que, pra mim, soa ainda pior do que aquele "boa tarde" hediondo
que alguém sempre se lembra de soltar quando chego atrasada ao local
de trabalho. Simplesmente pelo fato de que, em última instância,
o trabalho é uma forma de ganhar dinheiro, enquanto chamar o serviço
de taxi é uma forma de gastar. Mas como isso faz parte das delicadezas
das relações de consumo e o assunto desta crônica é
a divisão do tempo, voltemos à vaca fria.
Tudo bem. Eu sei que as datas
mudam sempre à meia noite. E sei que o nome do próximo período
é dia. Mas isso nunca interferiu na ordem natural das coisas. Que
eu saiba, desde que o mundo é mundo (ou pelo menos quase isso) as
noites sempre começaram no crepúsculo e sempre terminaram
na aurora. E que essa história de mudar a data à meia noite
é uma questão meramente burocrática. Porque, até
onde a minha vista cronológica alcança, a única determinação
matemática para o assunto é que mudemos de data a cada vinte
e quatro horas. E sobre isso, convenhamos, poderíamos ter escolhido
qualquer uma das outras vinte e três.
Mas eis aí um caso
em que a burocracia tem funcionado muito bem. Porque se as datas fossem
mudadas ao meio dia, por exemplo, você sairia para almoçar
e só voltaria ao escritório no dia seguinte. Já imaginou
a confusão? E já imaginou os atendentes telefônicos
desejando boa noite a partir do meio dia? Pois é.
Se isso lhe parece um completo
absurdo (afinal, quando é meio dia ainda faltam cerca de seis horas
para anoitecer), lembre-se de que quando é meia noite ainda faltam
cerca de seis horas para amanhecer. Portanto, ou a gente concorda com a
lógica do raciocínio, ou não.
Tá bom. Assim como
todos nós aceitamos um "boa tarde" de bom grado, confesso que eu
me contentaria com um simples "boa madrugada". Mas embora a atividade urbana
esteja cada vez mais dividida em três ou quatro turnos, nunca ouvi
um cumprimento assim. Será que a palavra é comprida demais
pra ser usada durante uma noite tão curta?
Pode até ser. Mas
tenho observado que essa história de desejar bom dia no meio da
noite só acontece quando existe algum tipo de fio ou cabo intermediando
o diálogo. Assim, ao vivo e em cores, cara a cara com as forças
da natureza, parece que ninguém tem coragem de dizer uma barbaridade
dessas.
Você já ouviu,
por exemplo, algum porteiro de boate recebendo as pessoas com bom dia?
Aposto que não. Nem os próprios taxistas, que bancam o tal
do serviço telefônico, cumprimentam a gente assim. Até
porque, se eles concordarem que depois de meia noite já é
dia, só lhes restará abolir a bandeira dois. Taí mais
um fato lógico e claro como o dia.
Bem, mas como a Maria Silva
conseguiu me convencer de que eu já deveria estar dormindo há
muito, muito tempo, peço meu taxi sem delongas ou especulações.
"Pois não, senhora.
O seu carro é o número tal. E tenha um bom dia."
Bom dia de novo já
é provocação. Por isso, antes de desligar, eu agradeço
fazendo a correção. Só que - aposto e ganho - isso
ela jamais percebeu.
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