| I am what I am
Gente, fui assistir ao show
da incrível, da espetacular, da maravilhosa, da sen-sa-ci-o-nal
Gloria Gaynor e acabei descobrindo duas coisinhas absolutamente desconcertantes.
A primeira é que as divas jamais envelhecem: elas só vão
ficando maiores, inclusive para os lados. A segunda é que eu estou,
definitivamente, ficando muito chata.
Não tenho nada a dizer
que seja desfavorável à Gloria, naturalmente. Para mim ela
sempre será uma glória, apesar daquele traje de natureza
indefinida que tanto poderia servir como abat-jour francês nos anos
30, como de bandeau de cortinado palaciano em qualquer época.
Quanto a isso, tudo bem: diva é diva, e a minha diva da disco music
tem todo o direito de se apresentar como bem entender, a não ser
que esteja rouca.
Mas vamos aos fatos. Tudo
começou quando, dias antes do show, eu tentei comprar ingressos
por telefone e não consegui. Não consegui, aliás,
por razões de ordem puramente neurológica: o meu cérebro
foi incapaz de enviar o comando necessário para que as minhas cordas
vocais emitissem um "sim" diante da taxa de 15% sobre o preço de
cada ingresso, sendo, ainda, que no dia do show eu teria que chegar uma
hora mais cedo para retirá-los. E continuou paralizado mesmo quando
eu soube que tal retirada é feita num guichê especial, que
provavelmente tem uma fila especial onde pessoas especiais aguardam só
um momentinho enquanto as outras pessoas especiais, que chegaram primeiro,
assinam os canhotos dos seus cartões de crédito especialíssimos.
Mas isso é chatice minha, porque havia também a opção
de receber os ingressos no endereço de minha preferência,
mediante módica quantia. Só que, confesso, preferi nem ouvir
qual era essa quantia para não correr o risco de entrar em choque
ou de ter uma convulsão psíquico-econômica. Outra chatice
minha, porque esse serviço é muito útil para quem
está fora da cidade. Eu, como estou dentro e sou chata, desliguei
o telefone e rumei para a bilheteria.
Cerca de setenta minutos
depois eu estava lá em carne e osso e constatei que, dos ingressos
em qualquer setor, fora a Platéia 1, que eu havia recusado setenta
minutinhos antes, já não havia quase nada. Mas, em se tratando
de São Paulo, é bem possível que umas três mil
pessoas tenham escolhido exatamente aquela horinha e dez para comprá-los
pela Internet ou telefone. Sim, porque a bilheteria tinha sido aberta há
coisa de meia hora e ali, na minha frente, só haviam umas cinqüenta.
Nada mais do que isso.
Mas sejamos honestos: o que
uma filinha de cinqüenta pessoas pode representar diante da delícia
de assistir Gloria Gaynor, e ainda por cima sem pagar os 15% de taxa? Cheguei
no escritório atrasada mas feliz da vida, com os ingressos na mão.
Tá certo que as poltronas ficavam meio que no alto demais e meio
que distantes demais, mas eu tinha ouvido de fonte segura e fidedigna que
a casa de espetáculos é excelente e que nada poderia comprometer
a qualidade da minha visão.
No dia marcado lá
estava eu, vinte e cinco minutos antes do horário, para ter tempo
de utilizar os serviços do bar e encontrar o meu lugarzinho sem
incomodar ninguém. Foi precisamente o que fiz e confesso (mais uma
vez) que só comecei a ficar ainda mais chata durante a segunda meia
horinha de atraso. Primeiro, por causa da falta de respeito. Depois, por
causa de uma discussão pra lá de irritante que começou
entre os espectadores da fileira da frente e só terminou quando
uma funcionária da casa foi até o local e descobriu que,
embora não houvesse uma poltrona marcada com o número 46,
havia uma poltrona sem marca alguma, de modo que todos poderiam se acomodar
normalmente, assim que uns dois ou três pulassem para o acento da
direita. E eu, que sou chata, mereço ter que assistir a uma bobagem
dessas.
A essas alturas do campeonato,
o público já estava pra lá de inquieto. Ouviram-se
aplausos, assovios, gritos e até mesmo algumas vaias antes que as
cortinas se abrissem, o que só aconteceu precisamente uma hora depois
do combinado. Desculpem-me os inocentes de espírito mas, para mim,
um atraso tão preciso é indício de premeditação.
E aí eu te pergunto: por que cargas d'água não se
divulga o horário correto, ainda que seja uma hora mais tarde?
As pessoas não precisariam
correr tanto, teriam tempo para jantar direito, não atravessariam
a cidade na hora do rush e não perderiam o humor antes mesmo que
a diva entrasse no palco. Mas não: os seres insensíveis que
têm o poder da digitação dos horários nos ingressos
demonstraram, mais uma vez, que não estão nem aí com
a imagem das estrelas e muito menos com a opinião dos fãs
delas. A propósito: já imaginou se eu tivesse comprado por
telefone e chegado mais cedo ainda? Felizmente, uma diva é uma diva
e sabe muito bem lidar com tal situação, de maneira que logo
tudo ficou bem e eu pude continuar a me perguntar: caramba, como é
que eu posso estar ficando tão chata?
Bem, pelo menos a casa e
o lugar eram excelentes e, de fato, nada poderia comprometer a qualidade
da minha visão. A não ser, é claro, que três
mocinhas resolvessem se levantar bem na minha frente, tampando até
mesmo uma parte do telão. E é claro que foi exatamente isso
o que aconteceu. Não se pode comparar os níveis de conforto
mas, pelo menos neste ítem, os shows de estádio saem ganhando:
segundo a minha experiência em arquibancadas e numeradas, nem mesmo
uma pessoa de dois metros de altura que resolva assistir a um espetáculo
em pé e pulando consegue atrapalhar a visão de quem está
atrás, até porque quem está atrás está
bem acima.
Nesta altura da conversa,
faço questão absoluta de parabenizar os representantes do
terceiro sexo que estavam presentes: atenciosos e delicados como sempre,
quando queriam dançar iam para os corredores que ficam entre as
fileiras, espaço esse onde ninguém atrapalha ninguém.
Isso é o que eu chamo de elegância. Já sobre o comportamento
pouco civilizado dos demais, dispenso argumentação. Até
porque, aposto e ganho, não ouviria nada mais profundo ou consistente
do que um medíocre "show é show" ou, em versão mais
antiquada, "quem está na chuva é pra se molhar". Pra mim
isso não passa de piada de mau gosto. E tenho desabafado.
Obviamente, houve um momento
em que o público inteiro ficou de pé. Inclusive eu. Alguns
por animação, outros para poder enxergar alguma coisa. Inclusive
eu. É óbvio, também, que todos acabaram se animando.
Inclusive eu. E dançando. Inclusive eu. E que a Gloria ficou visivelmente
encantada. E que eu me senti muitíssimo menos chata. Mas não
o bastante para resistir à tentação de contar minhas
desventuras, com todos os detalhes, para você. Mas, o que é
que se pode fazer? Citando a diva, I am what I am. E olha que eu ando bem
chata.
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