| Marcas para o futuro
Como você bem sabe,
velhas construções são verdadeiros documentos de suas
épocas e podem retratar, com bastante fidelidade, muitos dos hábitos
e costumes de seus antigos usuários. Foi por intermédio delas
que se descobriu, por exemplo, que até bem depois da Idade Média
ninguém fazia cocô ou xixi sossegadamente, dada a inexistência
de instalações privadas para tal fim. Pode conferir. Você
não vai encontrar nada parecido, nem mesmo nos mais importantes
e luxuosos palácios. A famosa "casinha", que até hoje é
possível encontrar em alguns fundos de quintal, só foi inventada
muito mais tarde, provavelmente quando alguém criativo se cansou
de tropeçar no penico.
Outro dia, prestando um pouco
mais de atenção a essas plantas de apartamentos que saem
aos quilos em anúncios de jornal, eu me dei conta de quantas informações
interessantes a nossa geração deixará gravadas para
a posteridade, especialmente nos empreendimentos de alto padrão
- aqueles que, pelo menos em tese, têm mais chances de durar até
lá.
Por intermédio deles
será possível descobrir, por exemplo, que as nossas classes
privilegiadas são obrigadas a enfrentar fila para fazer suas necessidades
fisiológicas, e que as fazem olhando para a calçada, através
de um vidro blindado e espelhado. O quê? Você não sabia?
Pois abra um jornal de domingo e informe-se melhor: os edifícios
de alto padrão dispõem de um único WC, que sempre
fica na portaria, dentro da guarita.
Em compensação,
no futuro saberão o quanto nós e nossas visitas somos limpinhos
e que, salvo raras exceções, cultivamos o hábito de
tomar banho em grupo. Só isso poderia justificar o fato de cada
apartamento contar com diversos cômodos denominados "banho", além
de um "banho privativo" que, pelo nome, deve ter sido criado para uso solitário,
em caso de rara exceção.
Outra coisa que os nossos
descendentes descobrirão, dentro de alguns séculos, é
que as nossas famílias são constituídas por dois gatos
pingados, mas que damos muitas festas e os nossos convidados sempre ficam
para dormir. Para chegar a esta conclusão, eles só terão
que comparar o tamanho das family rooms - que, por ter pouco espaço
e muitas portas, geralmente não comportam mais do que duas pessoas
tentando assistir televisão - com o tamanho do living e a quantidade
de dormitórios. Simples assim.
Mas, ao deparar com as verdadeiras
academias e parques aquáticos de que dispomos em nossos edifícios,
eles invejarão nossa incansável disposição
para a atividade física. Sim, porque ninguém seria capaz
de supor que pessoas equilibradas e inteligentes exijam e paguem por instalações
que não têm a menor intenção de usar.
E, finalmente, diante das
proporções das dependências de serviço, farão
incansáveis estudos para tentar descobrir se os nossos empregados
domésticos são de uma raça especial, caracterizada
pela diminuta estatura, ou se são obrigados a dormir em pé.
Mas, sobre isso, eles jamais conseguirão chegar a uma conclusão
lógica.
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